segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Il mio vero amore é russo

-Mamma, são duas da tarde se calhar já é tempo de acordar...Mamma? Não se finja de morta...Mamma? MAMMA??? Guiseppe!! Matteo!! A Mamma não se mexe! Mamma fale comigo!- E foi assim que a minha figlia me encontrou: Presa de movimentos, toda encolhidinha como uma favinha. Estava paralisada. As minhas pernas que dantes eram como duas rochas rijas, agora são moles e apenas mais um acessório do meu corpo inútil. "Oh! A velha fala português!", dizem. Novidade!! A minha mamma era portuguesa, sempre falei português com ela. O meu papa era italiano e sempre falei italiano com ele. Quando casei, casei com um italiano molto bello...Ma ché bello era o meu Alphonso...Oh! Que homem! Que marido! Que sacana de uma figa! Ainda choro a sua...morte, digamos assim. Aquele canalha sem escrúpulos, aquele animale, aquela raposa matreira! Bandito! Enrrabixou-se por uma senhora, uma senhora, que todos diziam que era "da vida" e lá foi com ela para não sei onde...Aquele stupido! Deixou-me a mim com a Francesca nos braços e com o Augustino na barriga. Augustino, meu figlio mais novo, claro. Anda por aí no mundo. Não sei onde pára. Ás vezes manda noticias, outras vezes não. Andava pelos lados da Índia, a última vez que me escreveu, anda perto, portanto. Falei com a dona Celestina e ela garantiu-me que a Índia é mais perto que Tutano verde, segundo um programa "Fátinha" que falhei, coisa rara porque é um programa que ouço sempre todos os dias, por isso ando descansada. Agora, se ele me vai para longe, assim como...França, não sei o que lhe faço!
- Mamma...são duas da tarde...
- Quê? Já? Não! Perdi o programa da Fátinha?
- Pois, a mamma demora tanto tempo! Dorme! Dorme! Dorme!
- Eu pedi à Eleonora que me acordasse! Bambina maledeta !Ai...figlia mia...ajuda tua povereta mamma a sair deste letto, desta cama...
- Vá, mamma, cadeira de rodas e...já está. Está mais gorda, mamma?
-É vero, figlia...São os teus canellones! Cozinhas tão benne!
- Quem faz a maior parte da comida é o seu genro, a mamma sabe!- dizia a minha Francesca ao ajeitar a minha mantinha, o meu xailezinho.
- É um inútil! Não o defendas, Francesca...Oh! Eco la gamma!
- O leque? Para que quer o leque, mamma? Hoje está fresco lá fora...
- Não sabes as artes da sedução, figlia...És muito nova!- Ai...E dito isto saí do quarto a toda a velocidade na minha cadeira de rodas.
- Vou chamar o Matteo para a ajudar a descer as escadas- disse a Francesca antes de eu a interromper.
- Non, figlia, ainda vou à stanza da bagno...Não! Nem perguntes Francesca, já sei que me queres oferecer ajuda! Não...não preciso de ajuda na casa de banho, vai trabalhar. Quando quiser descer eu grito pelo Matteo.
- Como queira mamma mia- LIVRE!! Fui à stanza da bagno, olhei-me ao espelho. Bom na verdade só consigo ver do nariz para cima, a cadeira dificulta estas coisas. Mas o cabelo estava bom. Fui às coisas das garotas e pus um bâton rosa para puxar o lustro aos meus beicinhos e pronto! Pareço que tenho menos 3o anos. Se calhar estou a exagerar, mas quem me dera! Hoje eu consigo engatar aquele garanhão russo. Aquilo é que é um homem...E vai ser meu! A concorrência agora aperta. Mas eu vi primeiro!! Aqueles músculos, aquele cabelo que parece cetim, aquele bigode que deve fazer cóceguinhas num terno e prolongado bacio appassionato! Velha, eu? Sou usada, só isso. E só usada uma única vez! Que fui donna de un l'uomo solo! Ontem vi aquela Melanie a babar para o Boris, eu vi, eu vi, aquela que tem a mania que é francesa...Aquela daquela laia que me roubou o meu Alphonso! Essa é usada todas as noites! Pensam que não sei? Eu sei bem. Sei que deixa o figlio com a dona Celestina, pobre mulher. E eu também tenho olhos é para ver! Todas as noites lá anda cá ela na esquina do Dolce Piacere. Eu já avisei a minha figlia. Ela que tenha olho no marido, se bem que se ele fosse embora com ela...humm...Oh...que ideia fantástica! Bravo! Se o stupido do Guiseppe se encaixa-se com a francesa a minha figlia deixava de carregar o fardo que carrega por o ter a tira colo e eu ficava com o Boris! Oh!! Mas isso não vai ser fácil Belina, não vai não. Mas consegue-se! Agora, roubarem-me o homem outra vez, o meu vero amore, isso é que eu não deixo.
Precipito-me, então, cuidadosamente para o quarto do meu russo. Como sempre ele deve estar a ler um livro, aqueles livros dos comunistas...Não é tão revolucionário e selvagem? E..ahh...Abro a porta, porque sei que ele tem-na sempre no trinco, como se a mesma fosse aberta por um fantasma. Agarro-me à parede e levanto-me, com muito custo, porque não sinto as pernas, ficando completamente agarrada à parede. O Boris, sereno, lindo, levanta os olhos da sua leitura e olha para mim.
- Dona Belina? Que está a fazer de pé? Pode cair...- Eis então que faço o meu ar sedutor.
- Boris...amore, eu sei que me queres. Porque andamos a negar o nosso amor à tanto tempo?
-Mas dona Belina...- Não o deixei falar, mas também não podia fazer muito mais! Não me podia largar da parede senão caía! Depois do ar sedutor há aquele aproximar e, finalmente, o bacio, como nos filmes de cinema que via lá na nostra Itália. Mas eu não tenho pernas para isso e o Boris não se mexia. Lembrei-me do leque, o meu objecto de sedução: Bolas! Ficou na cadeira, agora só consigo sair desta parede para o leito do mio vero amore, onde nos amaremos.
- Ai...Figlio ajuda-me aqui, vá!- disse eu, a modos para me aproveitar do russo. Ele chegou perto de mim, eu desequilibrei-me e, com toda a minha leveza, caí por cima dele no chão do corredor...Foi o momento mais bonito da minha vida.
- Boris...Te amo!
- Dona..hum..saia só de cima de mim...
-Non! Estou a gostar! Não vou sair!
- Dona Belina...
- Non! Non! Não saio! Mi Bacia, amore mio!- Ele então empurra-me, não sei porquê, deve ser uma mania dos russos, amam logo empurram, tradições, que se há de fazer, desequilibra-se e cai...(cuidado às pessoas mais sensíveis) escada a baixo.
- AMOREEEEEEEEE!!- gritei eu estendida no chão. Se tivesse pernas levantava-me e corria para o auxiliar, mas não tenho e por isso fiquei estendida no corredor e limitei-me a gritar:- MATTEOOOOO QUERO DESCER!!!- Todos correram para o ajudar, o Boris, amore mio, fracturou uma perna, partiu um braço e teve um ferimento ligeiro na cabeça. Ficou inanimado mas já está em casa, graças a S. Stefano! O problema é que o estafermo e stupido do meu genro pôs aquela Melanie francesa a cuidar a tempo inteiro do meu Boris! Mas com certeza ele vai lhe dizer que quem ele ama sou eu, a donna da vida dele sou eu, e não há mais ninguém no mundo que ele ame mais que...eu!Por isso estou descansada. Agora vou ver o que se passa no jornal da vila: Vou para a porta do restaurante: Oh! O Quim é um assassino e roubaram touros ao talhante? Incredibile!

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