sábado, 13 de setembro de 2008

Chegadas

- Muito obrigado, senhor Pinto, pela boleia!
- Boleia, boleia...Da próxima pagas! Não se pede boleia a um taxista! Rapazes modernos...- Eu e o Matteo vínhamos do picadeiro do senhor Custódio. Aliás, eu vinha do picadeiro, o Matteo da arena...
- Amadeu, não contes a ninguém que me viste lá!
- Tem calma, amigo! Não conto a ninguém, juro pela tua avó!
- Não tens nenhum juramento mais forte?- E rimos os dois. Jurar pela velha Bellini não era mesmo um bom juramento. Já era tarde e decidimos-nos sentar numa pedra que há em frente à drogaria da menina Rosália, a beber um bom vinho do Porto.
- Matteo, Matteo...Meu amigo Matteo! Nem a mim, que sou o teu melhor amigo, me contas-te das tuas touradas! E não é que tens jeito?
- Fala baixo! Estamos à frente da drogaria da "Panelona"...
- Ela foi raptada por um tarado qualquer, não ouviste falar?
- Pois...e a bronca foi no restaurante dos meus pais...Perdemos clientes, não muitos, mas perdemos.
- Qualquer dia quem a engoliu deita-a fora, vais ver- disse eu- Até lá não faz assim muita falta...Enfim, e...miúdas?
- Ragazzas?
- Sim! Ou vais dizer que és como o Dário?
- Cala a boca! Não sabes o que dizes! Eu...tenho muito trabalho e tenho de tratar do restaurante, e as touradas e...
- Oh! Matteo! Por favor! Oh...e por falar em miúdas: Aquela não é a Pilar? A empregada dos ricaços? Vou chama-la para podermos...hum...falar com ela: Oh Pi...- E o Matteo tapou-me a boca.
- Cala-te! Olha...Está a entrar para casa da dona Pureza.
- O que é que ela vai la fazer? Esconde-te!- E escondemos-nos atrás da pedra. Fiquei espantado quando segundos depois o senhor Custódio entrou também na casa da dona Pureza e a seguir a ele o Ismael. Eram três da manhã, o que iam eles fazer a casa da beata?
- Olha, Amadeu...Quem é aquele, ou aquela?- Eis então que vemos aquela que foi a última pessoa a chegar a casa da dona Pureza. No entanto não percebemos quem era. Podia ser homem ou mulher.
- É uma mulher- disse o Matteo.
- Com aquela altura?- disse eu. Não dava para ver. Tinha uma capa preta e um capuz pela cabeça. Estava escuro, o que não ajudou muito. Pensei que estava a ver coisas, que estava bêbado! Afinal eu e o Matteo deitámos uma garrafa de Porto a baixo, fora as outras que já iam a caminho da luz do dia. Mas não...Havia uma reunião em casa da dona Pureza, uma reunião que não devia ser de certeza para jogar à sueca! Quem joga às cartas às três da manhã?
- Vamos espiar!- Propus. O Matteo ficou um bocado de pé atrás...
- Não sei se será boa ideia, Amadeo...Vamos mas é dormir, vá!
- Nem penses! Eu vou, se quiseres vais para casa!- Disse isto como para "Vais para casa, és fraquinho", mas não resultou, porque ele foi mesmo a caminho do restaurante. Eu fui até à casa da dona Pureza. Boa! A luz da sala estava acesa! Empoleirei-me na janelinha da cave e tentei espreitar para dentro da casa, algo que não foi possível...
- Regina!!!- Gritou o Matteo ao ser surpreendido por ver a Regina, a balconista desaparecida, à porta do restaurante. Acordou toda a vila e adormeceu outros, pois, no momento em que eu finalmente consegui alcançar o parapeito da janela da sala da dona Pureza, e me preparava para espiar a reunião, o Matteo grita pelo nome da rapariga, grito esse que faz com que a luz da sala da Pureza se apague rapidamente. Maldita mania dos italianos de gritarem por tudo e por nada! De um salto desenpoleirei-me e fui a correr para o restaurante. A rapariga estava à porta, caída e magoada.
- Regina...Estás bem?- Perguntei, enquanto o Matteo a elevava.
- Tenho sede- disse ela. Parecia estar mal. Parecia ter andado na guerra!
- E o Bóris?- Perguntou o Matteo- Onde está ele?
- O Bóris? Ele desapareceu?
- Pensámos que tinha fugido contigo!- Disse eu para a miúda que mal se tinha de pé. Ela disse um "Nãaaao" e caiu nos braços do Matteo. Levámos-la para dentro. Chamámos um médico que a examinou.
- Ela vai ficar benne?- Perguntou a dona Francesca.
- Ela está pronta para aí...daqui a...cerca de 5 dias? Não quero perder mais tempo! Quero me casar com ela!- disse o anormal do meu irmão, fazendo contas pelos dedos. Tão estúpido...
- Calma...-disse o médico- Ela está bem. Tem só algumas feridas e está um bocadinho fraca. Terá de se alimentar muito bem.
- Tuttavia, chiaro che sì! Vive in un ristorante! Não há de comer benne?- disse o meu patrão.
- Eu faço os molhos!- Aprontou-se logo o Dário lolita.
- Não, não- continuou o médico- nada de molhos nem de picantes nem nada disso! Sopa!- Naquele momento o Nico começou a chorar no quarto. Bastava ouvir a palavra sopa para se exaltar. Nunca vi miúdo mais comilão. A dona Francesca foi ter com bebé, o médico foi se embora, o senhor Guiseppe para o seu quarto.
- Ela disse onde stava o Bóris, il mio vero amore, Matteo?
- Non nonna...Ela não sabe dele.
- Nem sabia que ele tinha fugido!- disse eu.
- Eu hoje fico com ela!- Pronteficou-se o Gil.
- Nem penses!-Disse o Matteo, fazendo o meu irmão encolher-ser como um rato de esgoto- Hoje quem fica com ela é o Dário.
- Mas eu sou o noivo dela!
- Ainda non és mio ragazzo, ainda não és...- disse a velhota regressando ao seu quarto, na sua cadeira de rodas. O meu irmão começou a chorar.
- Mas que maricas do caraças que tu me saíste! Cobardolas, pá! Metes-me raiva!- Não o aguentava. Depois de ter dito estas palavras ao meu irmão arrependi-me, mas ele já tinha saído a correr e a chorar como uma Madalena para a nossa casa, que fica mesmo por cima do talho do senhor Custódio, um quartinho que ele nos aluga, um anexo. E foi assim. A Regina descansou nessa noite e ao outro dia de amanhã era só gente à volta do restaurante, e não era para almoçar. Quanto à reunião:não vou contar ao Silva, nem a ninguém. Até agora só eu e o Matteo sabemos das escapadelas nocturnas de alguns dos habitantes de Coentros e mais ninguém saberá.

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