-"A tutti un buon Natale, A tutti un buon Natale, Che cosa è un buon Natale per tutti noi! Che cosa é un buon Natale per tutti noooooooi!!"- Cantavam as gémeas dos Bellini. O Natal dividiu-se em Centros, este ano. Havia uma festa na pensão da dona Celestina e outra no Dolce Piacere, onde eu estive. A dona Adelaide, a minha patroa, decidiu este ano aceitar o convite dos Bellini e lá fomos nós para o restaurante. Há muito que queria aceitar este convite dos Bellini. Sou judeu, não festejo o Natal, mas gosto de prendas e além do mais a pensão da dona Celestina não tem comida tão saborosa como a do restaurante dos Bellini, nem tanta variedade nem...ah! Mal posso esperar!Sei que este ano a dona Adelaide me vai dar mais um par de calças, iguais às do ano passado (Tenho quase a certeza de que comprou o ano a avulso e agora distribui para o resto dos anos em aniversários e natais), mas eu não me importo, com o que trabalho, e tendo só umas calçinhas, elas estragam-se logo. Fomos os primeiros a chegar. Tenho de dizer que a dona Adelaide ia muito bonita, muito mesmo! O Xaile que levava pelas costas preto, com umas rosas vermelhas, fazia sobressair as rosetas do seu rosto...Bom, mas o que estava eu a dizer? Ah, sim, claro, as pessoas. Fomos os primeiros a chegar, as "ragazzas" afinavam a voz, a senhora Bellini dava os últimos retoques na mesa que tinha tudo do bom e do melhor! "Ainda bem que trouxe bolsos grandes", pensei. O que foi? Um judeu tem de fazer pela vida! O Gil galanteava a moça do balcão e o Amadeu concertava uma luz da árvore de Natal. A Adelaide, a dona Adelaide, foi ajudar a rapariga do balcão, muito bonita também, a decorar um centro de mesa.- Dona Francesca- disse eu- posso ir à casa de banho?
- Ma claro que si! É lá em cima. Anda, podes subir, é logo a terceira porta.- Subi mas fiquei confuso. Era um corredor que dava para outro corredor com muitas portas. Nada parecido com o meu cantinho ao lado da arca frigorífica, da peixaria da dona Adelaide. Dantes morava na pensão da dona Celestina, mas como não podia pagar todos os meses, a Adelaide, a dona Adelaide, fez o favor de me "emprestar" aquela casinha, uma dispensa, ao lado da arca frigorífica. Comecei a pensar no que a dona Francesca me tinha dito...Onde era mesmo a casa de banho? Primeira porta à esquerda? Ou seria a segunda? Era a segunda. Fui então para a segunda porta. Estava fechada como todas as outras...Bati.
- Está alguém?- Ninguém respondeu e decidi abrir. Quando abri fiquei espantado. Um bebé! O filho do Bellini estava sentado num cadeirão e folheava um livro! Lia-o de óculos! Fiquei espantado e fechei a porta novamente, ficando à mesma do lado de fora. "Estou a ficar doido...Eu sabia que aquela sobra de linguado estava fora do prazo. Nunca a devia ter cozido.". Depois, abri a porta outra vez e realmente percebi que estava a delirar...Desta vez o bebé mastigava e babava o livro, como qualquer outro bebé faria. Fiquei enternecido...Era tão querido o Nico. Fui ter com ele e peguei nele ao colo, tirando-lhe o livro. Só depois reparei: Não estou na casa banho.
- Oh, pequenote! Anda cá...O que estavas tu a ler, afinal? Hum...um livro sem titulo?- E depois comecei a olhar à minha volta. Aquele devia ser o quarto de um dos Bellini. Estava mobilado, estava cheio de livros e a cama tinha lençóis e colcha. O bebé olhava para mim com um ar infeliz.
- Vou te levar à tua mamã- ele começou a chorar desalmadamente- Pronto, pronto, não te levo à tua mamã- ele calou-se e olhou para mim com os olhos cheios de lágrimas. Queria tanto ter um filho. Sentei-o no cadeirão novamente e ele sorriu. Que sorriso querido, o do miúdo. Parecia que já tinha mais idade! Eu continuava com o livro na mão e ia abrir a primeira página quando alguém entra no quarto. De susto guardei o livro dentro do meu casaco. Era pequeno e não muito pesado. - Ismael?Deixa-me adivinhar:Enganaste-te na porta! Oh, mio Dio! Não é nesta porta, é na seguinte...- Disse a senhora Francesca rindo-se da minha ignorância.
- Pois, enganei-me, já sabe como eu sou...Mas depois vi aqui o Nico e não o queria deixar sozinho...
- Ah, deixa lá! Ele passa aqui as tardes, agora. Sem fazer nada é certo, mas fica aqui, a olhar para as coisas do...
- De quem?- Perguntei.
- Do mio fratello Ângelo- disse a dona Francesca, enquanto pegava no Nico que começou a chorar desalmadamente e a espernear como se não houvesse amanhã. Não sabia da existência do irmão Ângelo da dona Francesca. Sempre pensei que eram os Bellini, os seus quatro filhos e a mão da dona Francesca. Ângelo? Bom, eu também não ando muito dentro destas coisas. Há dias que nem saio de dentro da peixaria...Desci com a dona Francesca para a sala, onde a mesa já estava finalmente posta para o jantar. O peru do senhor Bellini foi o melhor que já comi em toda a minha vida. O melhor e o único. Nada como aquilo me tinha passado pelo estreito. No meio da refeição...
- Tlim, tlim, tliiiim!!! Atenção!!- Bateu o Dário com um garfo num copo, o homem esquisito que costuma ir compara abrótia à peixaria e de quem a senhora Adelaide não gosta.
- Se me partes o copo bem podes fugir!- disse a velha Bellini deixando escapar um bocadinho traiçoeiro de peru.
- Não, dona Belina...Então? É natal! E daqui a seis diaaaaaaaas a minha amiga Regininha vai se casar!- Todos bateram palmas e festejaram. O Dário continuou- E então eu queria propor um brinde aos noivos!!- Todos nos levantá-mos e brindá-mos. Aquele vinho foi o melhor que eu já bebi em toda a minha vida! Costumava beber um bocadinho no "Escondidinho", mas agora que acabou já não bebo mais...Que...
-NOJOOOOO! MAMMA! O Nico vomitou o peru!
-Oh, Dio! Nico? Estará doente? Ele nunca rejeita comida!- Disse a dona Francesca levantando o Nico da sua cadeirinha de madeira e levando-o rapidamente à casa de banho. Todos parámos de comer. Eu fiquei sem apetite assim como toda a gente.
- Buono! Il Perù é per domani ... Stiamo per dolci!- Tradução: Bom, o peru fica para amanhã, vamos aos doces! Comemos e as raparigas cantaram e todos dançámos e ouvimos histórias da dona Belina, que fizeram o Nico vomitar três vezes, o pobre rapaz está mesmo doente, deve ter sido do pó que "comeu" daqueles livros empoeirados do irmão da dona Francesca. O bater da meia noite bateu com o final da canção das moças:
-....Dormire in pace, oh Gesù...- Tradução: Dorme em paz oh, Jesus...Coisa esquisita esta dos católicos. Dorme em paz oh Jesus e não chateies mais ninguém, pá! Acho ofensivo, mas ouvi de bom grado.
- Doze horas!! Prendinhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaas!- Gritou o Dário, aquele esquisito da peixaria. Só depois me lembrei de que me tinha esquecido das prendas dos Bellini! Oh!! Para a dona Adelaide comprei-lhe um conjunto de facas de esfolar peixe, que ando a pagar às prestações, na loja da menina Rosália, ainda ela estava no activo...Onde andará a menina Rosália? E que Natal estará a ter? Pobre menina Rosália...Mas, como estava a dizer, para os Bellini não comprei nada...Não estou acostumado a comprar! Mas, enfim, também não foi problema porque não me ofereceram nada a mim. Da Adelaide, dona Adelaide, recebi, oh! Que surpresa! Umas calças mas!!! Mas!!! Estas eram diferentes! Tinham mais bolsos atrás! Que querida...Fiquei tão contente! E a dona Adelaide? Oh! Ficou feliz da vida ao ver as facas de esfolar! Era tudo o que elas mais queria, eu sei que sim. Todos receberam presentes: Bonecas, ursos de peluche, que fizeram o Nico chorar, cremes, águas de colónia, camisolas, chapéus e...colares!
- Esta é para ti, Regina, minha noiva- Disse o Gil. Espera lá! Eles vão casar?
- Oh, Gil, não precisavas de te preocupar...- Quando a rapariga abriu a caixinha deparou-se com um colar de pérolas, o mais bonito que eu já tinha visto! E o único, também! Uau...Passaram dois segundos e o Dário "roubou-o", tentando ver-se ao espelho das cristaleiras do restaurante.
- UAU! Tens de me emprestar, gininha!!! É superrr!!- Depois doi esbofeteado pelo Amadeo e pelo Gil, que fizeram com que o colar fosse novamente para às mãos da sua dona. A rapariga pôs o colar e todos olharam e admiraram a beleza da joia. Todos, menos ela, que no minuto o tirou "para não o estragar". Mesmo assim, todos estavam felizes com as suas prendas, mas sobrava uma na árvore.
- Quem é que ainda não tem prenda?- Disse o Matteo, aproximando-se da árvore e pegando na prenda- Aqui diz...Ismael! Da Regina para o Ismael!- Fiquei tão envergonhado...E agora? Não tenho nada para lhe dar! A moça entregou-me a prenda.
- Comprei prendas para todos e você não foi excepção...Abra!- Disse a rapariga do balcão. Olhei para todos e esgatafunhei o embrulho todo era...era...Não queria acreditar! Umas meias! As minhas primeiras meias! Agradeci de todo o coração e mostrei triunfalmente as meias a toda a gente, fazendo-as rodar no ar! Estava feliz. Tenho de tratar de comprar uma prenda para a rapariga. Não consigo ficar sem lhe dar nada! Oh! Espera...
- Bom, vamos-nos embora...- disse a dona Adelaide- Muito obrigada por tudo! Adorei! Foi óptimo! Para o ano cá estaremos, se não for incómodo, claro!
- Ma come un fastidio? Essi sono sempre i benvenuti! Adeus!- Disse o senhor Guiseppe, seja lá o que for...Já nos estávamos a dirigir para a porta quando me lembrei de como sou estúpido! Tinha uma prenda para a rapariga e estava mesmo dentro do meu casaco! O livro! Tinha uma capa bonita, nova...Espera, na contra-capa diz...B-B-Biris! Bóris! Deve ser o autor...Deve ter custado uma pipa de massa! Autografado e tudo...E estava em tão bom estado, não era usado.Era novo de certeza! Bom, eu não sei ler muito bem, mas ela deve saber e tem cara de quem gosta de uma boa história.
- Espere um bocadinho, dona Adelaide!- E fui a correr ter com a rapariga à cozinha, que naquele momento lavava a toalha do jantar, vomitada pelo Nico. Cheguei-me ao pé dela e estendi-lhe o livro à frente dos olhos. Ela olhou para mim e limpou as mãos ao avental.
- Para mim?- disse ela- Mas...
- Eu não lho dei à frente de todos os outros, porque não tinha para eles...- Desculpas à Ismael. Mas resultou!
- Oh...Mas que meigo da sua parte, Ismael. Agradeço, vou começar já a lê-lo hoje! Acabei agora um do Eça de Queirós, conhece a escrita dele?
- Oh! Se conheço, desde criança! Nem tinha ainda a idade do Nico, para ver...- Foi bem esta hã? Ela assim vê que não sou nenhum parvo.
- Vou guarda-lo aqui no bolso do avental, vou só acabar de lavar a toalha e quando me recolher para o me quarto começarei a lê-lo...Obrigada Ismael!- E deu-me beijinho...O melhor beijinho que eu já tive nesta vida! E o único...Minha mãe devia me dar, mas...não me lembro de nada. Só sei que aos 10 anos acordei numa cama de hospital. Tinha perdido a memória e os meus pais estavam mortos. Não me lembro de rigorosamente nada. Depois fui para o orfanato e do orfanato para aqui! Fiquei contente. Dei o livro à moça e fiz um brilharete! Tenho umas calças novas, cheias de bolsos e...até gosto do Natal. Se não fosse judeu, bem podia ser católico. Feliz natal Ismael! Obrigada, eu.
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