- Ai está muito fresco Pilar! Fecha já as janelas!- Es por ahora mi señora!
- E o almoço? Não se esqueceu que hoje vem cá a senhora Maria Vitória, pois não?
- Se está haciendo señora!
- Bom ... então eu vou para o salão de beleza e volto às 11 e 37 em ponto. Vá-me chamar o motorista por favor.
- Señora ... Luís Ricardo, a señora despensou-o ontem.
- Foi? Que maçada! E o senhor Paiva já saiu?
- Primera hora de la mañana.
- Meu Deus que maçada tão desagradável! Bom parece que fico por casa então. Talvez vá ouvir um pouco de rádio ... não fique aí especada mulher! Vá fazer as camas e tratar do almoço!
São a pior coisa do mundo as empregadas. Estúpidas, preguiçosas, jovens, inesperientes ... ai se não precisásse tanto delas! A cabeça de vento da Pilar é a única que temos de momento. E sem motorista não sei como vai ser, lá terei de procurar pela aldeia sempre fica mais baratinho.
- Raio da rádio não funciona! Pilar! PILAR!! Chegue cá imediatamente!
- Señora llamada?
- Mas onde é que você desencantou esta porcaria??
- Donde usted me dijo! Na "panelona"!
- Na quê?
- Es como los muchachos chamam a niña Rosália.
- Olhe como não tenho nada para fazer vou lá imediatamente reclamar!
Peguei no rádio e cá fui eu. Era minúsculo, cabia-me debaixo do braço. Nunca tinha reparado na vila, desde que cheguei à um ano atrás nunca me tinha dado ao trabalho de estragar as minhas solas no chão de Coentros.
- Ora cá está!
Bati à porta e ao a empurrar o sininho que estava por cima fez-se ouvir. Era escuro e estava cheia de tralha no chão, agarrada aos tectos e ás paredes. Quase que me estanpei no chão duas a três vezes. Não estava ninguém ao balcão por isso resolvi rondar mais um pouco pela loja. Vassoras, enlatados, bonecas de porcelana, cestos, cadeiras de palha, toalhas de mesa, tudo o que pudessemos imaginar. Cheirava a pesticida e a chá.
- Bom o que vai ser ... ahh ...v-você é ... é a Dona Maria Luísa Paiva e Castro!
- Sou eu sim minha querida e você é ...?
- Rosália menina ... ah Menina Rosália!
- Prazer (beijos aéreos). Bom o que me trás aqui é esta ... tralha que deveria dar som e música e todas essas coisas para que são feitos os rádios!
- E então?
- E então não dá!
- M-mas v-você comprou isso aqui?
- Eu não credo! Sou uma pessoa de classe. Eu não "compro" coisas, mando "comprar".
- Eu acho que não tenho aqui mais nenhum. Deixe-me ver no armazem, dê-me um minutinho.
- Com certeza!
Tipíco de comerciante de baixo nível, deixa o cliente pendurado. Só eu para aturar isto! Ao menos faço algum tempo enquanto não chega a Maria Vitória.
- Ora ... esse é filho único!
- Desculpe?
- Não há mais ... m-mas eu posso mandar vir.
- Não há mais ... m-mas eu posso mandar vir.
- Deixe estar para isso "mando comprar" em Paris. Ora tenha um bom dia sim ...
- Não se vá embora ...!
- Desculpe?
- É que eu ... sou uma grande admiradora sua. Você é elegante e tem classe, não é como o resto desta gentinha sem nível. Eu sempre vivi aqui e estou muito triste por ver ao que isto chegou ... uma vila de furagidos e estrangeiros!
- Realmente ...
- Mas alguém tem de fazer alguma coisa! Coentros poderia ser a vila mais chique do país.
- O que tem em mente?
- Expulsar os estrangeiros claro!
- Mas como?
- Eu tenho cá umas ideias. Podiamos discuti-las ao almoço, a menos que tenha outros planos.
- Gosto da sua maneira de pensar! A Maria Vitória acompanha-nos. Onde vamos já agora? A sua casa?
- Melhor, ao restaurante italiano!
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