- Gostas de me ver este vestido?- Hum, não é que te fique mal, mas...
- Eu gosto mais do rosa. Não gostas?
- Do fato?
- Não, amor, do vestido!
- Dário...tu és homem, vais de fato, não de vestido!
- Oh...mas posso sonhar ou não?- Sim, sim, sim, sim é tudo muito bonito, muito lindo "ai que lindo o vestido da noiva, ai que lindo o colar, ai que o bolo deve ser saboroso, ai que tudo e mais alguma coisa". Está tudo feliz e eu tenho de ir de fato? Não me sinto confortável, que maçada! A dona Pureza, por exemplo, vai bem bonita com um vestidinho verdinho claro. E eu vou de cinza...Ao menos vou levar uma flor vistosa no bolso do fato.
- E as flores, Regina? Quais vão ser?- Disse eu enquanto colocava o ma-ra-vi-lho-so vestido rosinha no cabide.
- Pensei em rosas cor de rosa...
- Ai, credo! Que dê-mo-dê! Escolhe...Gladíolos!
- Essas flores são esquisitas e têm um perfume muito forte, Dário, é o meu casamento, não é o meu enterro, onde as flores têm um cheiro sempre tão intenso...Her! Até me arrepio.
- Olha, amor, não é mas parece. Já viste com que cara dizes isso? Parece que preferes ir para a cova!
- Ai, Dário! Não digas isso...
- Pois...Dário não digas isso, Dário não digas isso...Falta um dia para o teu casamento. Tens apenas amanhã para te pores feliz e...seu amor de Dário, filha, a felicidade não nasce assim.- A Regina irrita-me. Juro pela Grace Kelly! Está murcha. Vai casar e está assim...Ela não gosta do Gil, pronto! É verdade! Irritou-me de tal maneira que a puxei para um banquinho lá da modista lhe disse:
- Amor, porque vais casar com o orelhudo?
- Porque...
- Não! Cala-te! Sou eu a falar. Amor, tu tens de ver o que vais fazer. Se queres ir atrás do russo , vai, mulher! Vai! Estás me a irritar assim! Agora: Se queres ter uma vida desgraçada, atrás daquele balcão, a atender clientes e o teu marido a levar bandejas para eles, tu é que sabes. Mas digo-te já, amor do seu Dário! Tens à tua disponibilidade uma vida de aventura ao lado do russo mai lindo que já vi nesta minha singela vidinha de molhista!
- Mas ele não está cá Dário...A Carta, ele...
- PCHHHHT! Caluda. Olha para o teu Dário- Ela não olhava- Olha-me nos olhos Regina Maria! Quero te ajudar, amor. E se for preciso corremos mundo à procura do russo loiro.
- Isso não pode ser assim, Dário. O mundo não é Coentros!
- Regina, eu sei disso tudo...Mas se é dele que tu gostas, amiga. Eu se tivesse um russo, com uma tablete daquelas na pancinha, com aqueles cabelinhos doirados e ainda por cima comunista!
- Fala baixo Dário!- Exaltei-me, é compreensível, meninas.
- Comunista...Violento, aventureiro, selvagem, valente...E gosta do vermelho que é uma cor que lhe cai muito bem- Ela ficou a olhar para mim e disse para eu ir provar o fato. Quando saí do provador parecia o meu avô Cristalino Grunhido.
- Pareço um velho, Regina! Não gosto, vou tirar!
- Espera!- Disse a minha amiga. Pensei que era para me dizer que o fato me ficava tão bem a mim como à carne em saldo do talho do senhor Cristóvão, mas...não era, nada, de todo, isso. Aproximei-me dela. Estava a ler um livre...esperem...um book! Estou a aprender inglês com umas cassetes que comprei.
- Que é isso, amor? Alguma história de amor entre uma empregada e um comunista russo...lindo, doiradinho...
- Não...É melhor. É o diário do Bóris...Eu não estava a perceber, esta letra era-me familiar e depois encontrei a assinatura dele e comprovei que, então, era mesmo ele! Aqui diz tanta coisa, Dário. Coisas sobre a guerra, coisas sobre ele, coisas sobres os "camaradas" dele, coisas sobre mim! Tanta coisa sobre mim...Ele amava-me, Dário.
- ELE AMAVA O DÁRIO? O que é que disses-te, amor??? EU sabia!!
- Ele amava-ME, Dário...
- Ah...Se me amasse a mim também não era mau...Mas diz lá onde é que arranjas-te esse livro tão...culto. Andas-te a esgravatar nas coisas do russo! OH! Não posso! E encontras-te cuecas?
- Dário!
- Que é? Estavam sujas?
- Dário!
- Ai, pronto, ok...Quem te deu isso?
- Por incrível que pareça, foi o Ismael...
- O pau mandado da Adelaide?
- Esse mesmo. Mas porquê? E como é que ele tinha isto? Tenho de falar com o Ismael...
- Será que ele conhecia o Bóris?- Estava perplexo. Dois homens daqueles amigos!! Se a Regina ficasse com o russo eu ficava com o outro e fazíamos aqueles encontros a pares...Íamos ao cinema, íamos almoçar, íamos à praia...Oh!
-Não sei se se conheciam, mas é estranho...Olha, Dário o que ele escreveu aqui:
(...)A Regina...Ah...Quando a vejo sinto o meu coração bater mais rápido. Desde aquele dia em que ela veio cuidar de mim o meu coração decorou o nome dela e nunca mais o largou. Ela é a musa das minhas teorias. Por ela eu quero mudar o mundo, porque uma criatura como ela não merece viver no mundo em que vivemos...(...) Quero me casar com ela um dia. Ter uma família. Vamos viver para Paris, lá sim, lá seremos felizes. Já não digo para Moscovo porque...eu tenho as minhas razões. Mas Paris é uma boa alternativa. O meu primo Igor acolher-nos-ia com muito carinho. Um dia fujo com ela para lá e se ela não quiser ir comigo ou se o seu coração for de outro, serei o homem mais infeliz do mundo, e. em vez de ir para Paris ser feliz, vou para Paris chorar as mágoas do amor. Para sempre Paris, para sempre Regina.
- Ficámos os dois parados a olhar para o livro. O senhor Italvino, da loja onde estávamos em Moscardo, chorava e limpava o nariz à gravata acetinada. Pobre gravata e pobre Bóris. A Regina, no entanto tinha um sorriso na cara.
- Ele está em Paris, Dário!- Disse ela dando um pulo e abraçando-me. Nunca a tinha visto tão contente.
- Boa, amiga!Apanha o comboio, depois o barco e rumas a Parrrrriiiiii a cidade do amoooooor...Ai...Mas, lamento desiludir-te, vais casar depois de amanhã!- O mundo caiu-lhe ao chão, mas eu continuei a animá-la- Mas vê o lado bom disto: Podes sempre desistir.
- De casar? Oh, isso seria...
- Uma óptima solução! Mas dou-te um conselho...
- A não desistir porque o Gil é um bom rapaz?
- Não, amor! Que mente atrasada, Regina! Desistes, mas só depois da despedida de solteira, assim, gozas aquela noitinha bem gozada e depois "Ah, afinal não quero" E fim! Coincide com o ano novo e tudo, 31 de Dezembro, yei, yei fogo de artificio Regina não casa!Só vamos lucrar! Guarda-se o arroz que te íamos atirar e fazemos uma cabidela de levar o dedo à orelha! Levo este rosa- disse, finalmente para o senhor Italvino.
- Não! Ele leva o fato cinza...quanto é que devo?
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