- Ora diga lá, senhora Adelaide, os seus pecados de à...cinco minutos.- Senhor padre, o meu maior pecado é a luxuria! Olho vezes sem conta para o...rabo do meu assistente...
- Rabo? Desculpe, ai meu Deus, quis dizer assistente?
- O judeu de uma figa, senhor padre! Ele é tão bonito...Eu acho-o tão elegante e rude! Ai, que calor...
-Ora diga lá, senhora Pureza, os seus pecados de à...espere aí a senhora não saiu daqui ainda?
- Ai, senhor padre, senhor padre...Sou uma pecadora nata, senhor padre...Tenho raiva e ódio dos italianos.
- Isso é muito feio, minha filha. Todos somos como irmãos, todos somos filhos de Deus e todos temos de ter respeito por qualquer ser!
- Eu sei, mas que posso eu fazer? E a menina Rosália? Ela ainda faz mais para que eu tenha ódio daqueles estrangeiros!
- Ora diga lá, Gil, os seus pecados, meu rapaz...
- Padre, sou um fraco, um idiota, um incapaz! Não tenho tomates!
- Gil! Estás na casa do senhor!
- Desculpe, senhor padre, mas realmente é verdade...Não consigo dizer à Regina que a amo.
- Tens de ter mais força de vontade!
- E depois há aquele matulão, o Bóris...
- Esse? Esse nunca se veio confessar...
- Ele é comunista, senhor. Não acredita nestas coisas. Mas que hei de fazer? A Melanie já me propôs...
-Ora diga lá...Quim? Que fazes aqui?
- Ora, que queres que faça na casa de banho?
- Não! Quim! Sai daí!! Nãaaaoooo. Pronto já me urinou o confessionário outra vez!- Pecados, missas, baptizados, extremas unções, rezas, festinhas, esmolas, limpar a urina do Quim...A minha vida é isto. O Quim é o meu irmão mais novo e mora comigo na casa paroquial. Sempre teve um parafuso a menos, mas, agora que bebe mais acabou por perde-los todos. Correm rumores de que anda alguém à procura do Quim e eu tenho medo que seja a...a mulher dele, pronto, já disse. Sim, o Quim pode ser atrasado, mas teve mulher e dois filhos. No entanto, nunca o trataram como ele merecia. O Quim é uma pessoa...digamos...bêbada e, por isso, precisa de cuidados. O Quim não tem ressacas porque o corpo já sabe que não vale a pena fazer esforços, porque na noite seguinte o Quim vai beber até cair. Bom, na verdade não tem ressacas porque ele não dá espaço para tal coisa. O Quim está constantemente a beber. Nas missas, quando quero beber o cálice de corpo de Cristo, nunca tenho vinho! Nunca! Já combinei com o Custódio e é ele que trás o vinho agora. Nas festas de baptizado e casamento, o Quim, no fim, passa por todas as mesas e bebe todos os bocadinhos de vinho, e seja lá o que mais lá estiver, do fundo dos copos! Ele é um bêbado com "B" grande. Tenho medo que seja a mulher dele que o procure. Fui eu que trouxe o Quim para cá porque mais ninguém tem mão nele que eu e, se ficasse por lá, na nossa terra, acabaria por morrer! Eu sei que sim! Não quero que o encontrem...Sabia que a Belarmina um dia ia procura-lo...Aquela mulher insuportável! Ai! Desculpe Cristo! Mas esta situação põe-me doido. Será que o melhor é mandar o Quim para a Vila Sem Nome? Temos lá parentes! O Manel dos Coices! Nosso primo e grande companheiro de brincadeiras do Quim, quando eram gaiatos...Isso explica porque o Quim é assim...Bom, mas mesmo assim era o melhor que tenho a fazer. As pessoas começam a falar e sei que lá, com o Manel, ninguém vai dar pelo Quim. Nunca noite levei o Quim à estação de comboios em Vinha Amarela, uma vila, perto daqui.
- Não quero ir embora, porque me lebas embora da bila?- dizia o Quim.
- Tem de ser...É melhor para ti. E além de tudo, na Vila Sem Nome há litros e litros de vinho do bom!
- Boa!!- Disse o Quim, entrando para o comboio e sentando-se no primeiro banco que lhe apareceu. Pelo menos lá, ao pé do Manel, o Quim vai estar longe e tenho a certeza que não vai encontrar a mulher dele tão cedo. Não que eu tenha alguma coisa a esconder! Não! Mas é melhor assim...Quando voltei a Coentros...
- Onde foi senhor padre?- Menina Rosália, já não a aguento. Ai, desculpe Cristo!
- Fui...fui...levar o Quim ao hospital.
- Ai...Ai, Jesus!! Está a morrer?
- Não, credo, menina Rosália! Mas vai ficar internado por uns tempos devido ao álcool, sabe como é, ninguém tem mão naquele homem!- Mentir é feio, eu sei, ai, desculpa Cristo!
- Se sei! Ai...então e aquela senhora que andava à procura dele, aquela senhora que ligou para a Fátinha?
- Devia ser engano. Sabe como são estas coisas, dona Rosália...
- Dona não! Menina!
- ...Menina Rosália, há muitos Quins dos Coices por este país fora! E o Gil não ligou para lá a pedir o número?
- Sim...
- E deram-lho? Não deram! Porquê? Porque as pessoas da rádio souberam logo que era engano. Olhe, desengane-se a senhora e vá rezar um pai nosso!
- Bom, tem razão, senhor padre, lá nisso tem razão...Devia ser mesmo engano. Há gente para tudo, credo! Vou mesmo agora seguir o seu conselho e rezar pelas pessoas mentirosas, que não têm tento na língua, adeus!- E lá foi ela. Pelo menos já tenho quem reze por mim...Sinto-me mal em mentir, mas tenho mesmo de fazer isto. Mais à frente, na vila, estava um alvoroço! Que se teria passado? Aproximei-me.
- Sua vadia! Andas-me a roubar os touros! Pensas que não sei? És mais cornuda que eles!!!
- Não lhe admito, seu talhante de meia tigela! Seu horroroso! Não sou ladra! E como iria eu roubar esses bichos fedorentos? Para que queria eu esses monstros?
- Para eu não ter carne para vender e você ter mais clientes, ora essa! Ai...Ai...- O senhor Custódio refilava com a dona Adelaide. Mas aquele refilar era diferente dos outros de sempre. Pessoas agarravam os dois, para não se pegarem ali, no meio da rua à batatada! Num instante, o senhor Custódio começou a ficar vermelho, vermelho e caiu nos braços do Matteo, pessoa que o segurava para não partir para cima da dona Adelaide à pancada.
- Um médico!- Gritou o rapaz dos Bellini- Senhor padre, chame um médico!- Mas porque é que as pessoas quando precisam de alguma coisa é logo: PADRE...?A dona Adelaide, sentindo-se culpada, fugiu mais o "seu" Ismael para dentro da peixaria e o resto das pessoas andavam ali como baratas tontas!
-Um médico!- Gritavam todos. Naquele instante alguém irrompeu da multidão. Era o ateu: Bóris.
- Afastem-se- disse ele- Eu posso ajudar.
- Precisamos de um médico! Não de um comunista disfarçado!- disse a menina Rosália. Eis então que da sua casaca, o russo saca de um cartão e entrega à menina Rosália, enquanto despe a camisa do senhor Custódio. Qual não é o espanto quando...
- Oh!- exclama ela- E não é que o russo é médico?
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