Eduardo Paiva e Castro é o meu nome. Minha esposa, Maria Luísa Paiva e Castro. Amor da minha vida. Sou rico e bem sucedido. Homem de poucas palavras. Cresci em Trampa à Nova, uma pequena terrinha do interior. De lá parti aos 20 anos para a capital para ser rico. Só depois descobri que ser rico não é profissão e por isso ingressei pela política. Fui ministro um par de anos, reformei-me e agora sou finalmente rico!Conheci a minha esposa num baile. Era a moça mais linda que eu já vira. Casámo-nos e não tivémos filhos pois nunca foi do tipo maternal e ela era estéril. Com o tempo fartámo-nos da vida agitada da cidade e então percorremos o país à procura de uma vilinha simpática para vivermos os nossos anos de incontinência. Depois de as percorrermos todas decidimos ficar por Coentros.
Nunca gostei desta vila nem das suas gentes, por isso pouco tempo cá passo. Passo os dias em casa a ouvir música clássica, a ler os grandes clássicos e a apreciar as pernas da nossa empregada Pilar. Que docinho!
Tenho alguns amigos com quintas próximas da região e por isso ocasionalmente frequento convívios, vou à caça e à pesca. Ultimamente tenho estado por casa e comecei a pensar em envolver-me mais na vida da vila. A minha Maria Luísa já tem "conhecidas" e eu quero arranjar uns "amigalhaços" com quem possa partilhar os meus interesses e dar algumas gargalhadas proporcionadas pelo "tintol" como diz a juventude.
Tenho passeado pelas ruas pela manhã e começo a inteirar-me das vidas e acontecimentos dos meus vizinhos. Parece que anda um homem furagido assim como uma "Panelona", coisas dos rapazes que eu não percebo. E parece que uma rapariguinha apareceu ontem à porta de um restaurante. Parece que é um restaurante italiano. Sempre aventureiro convidei a minha esposa para um almoço no dito espaço.
Vestimo-nos a rigor para a ocasião. Dissémos à Pilar para nos acompanhar mas a moça disse que ía aproveitar para estar com o namorado. Pronto já me estragou o almocinho!
Mas a Maria Luísa estava entusiasmada por isso engoli a minha decepção e gosma e lá fomos nós. O restaurante não fica muito longe de casa e por isso fomos a pé. Ao chegar reparei que estava completamente vazio. Melhor, detesto ouvir os pobrezinhos a falar das suas miseráveis vidas ao almoço, tira-me o apetite.
Escolhemos o lugar junto à janela para pudermos ver as vistas. Consegui contemplar a praça da vila e o jardim público.
- Ora bom dia aqui têm o cardápio!
- Obrigada jovem. - respondi com desprezo.
Os empregados eram bastante jovens. O que nos atendeu era um rapaz de aspecto agradável se bem que tinha um hálito bastante ... uh! O feioso estava a um canto de olho numa rapariga com ar ansioso. A rapariga era muito bonita e parecia estar a evitá-lo. Percebi que devia ser a rapariga que apareceu a meio da noite. A Pilar disse-nos que a pobrezinha está apaixonada por um médico. Mas que ele a abandonou na vila, sozinha e grávida. Uma tragédia que me fez verter uma lágrima. Sempre fui um homem sensível.
- Jovem! - clamei com um gesto.
- Já escolheram?
- Vamos querer Risotto de cogumelos e parmesão e parar acompanhar um vinho do Porto. Do bom homem! Do caro!
- Com certeza!
O risotto estava a demorar e por isso decidi meter conversa com a rapariga. A Maria Luísa ficou distraída a falar com uma vizinha que entretanto entrara no estabelecimento.
- Ora bons dias minha flor!
- A ... a bom dia senhor. Deseja alguma coisa?
- Saber o seu nome.
- Regina.
- Que lindo nome.
Na verdade o nome era abominável. Mas a culpa não era dela, e o nome era compensado pela extrema beleza da rapariga. Cabelos negros, pele clara como marfim, olhos escuros e brilhantes e uma covinha que tornava o seu sorriso ainda mais doce. Sorriu timidamente quando a elogiei. Mas reparei que estava à beira das lágrimas.
- O que se passa minha querida?
- Nada senhor, são só disparates de uma tonta.
- Ora, não devem ser disparates para estares nesse estado.
- Não posso falar aqui e ... consigo, nem o conheço!
- Talvez isso ajude.
- Agradeço mas tenho mesmo de ir trabalhar.
Não obtive grandes resultados, mas fiquei a saber o seu nome. O risotto estava óptimo apesar de estar praticamente frio. Decidi voltar lá todos os dias para ir conhecendo melhor a rapariga. Ela foi-se deixando conhecer. Ao final do dia durante a sua pausa vinha cá fora falar comigo. Já tenho uma mesa reservada e tudo. Todos os dias lá estou as 19 horas a beber o meu cappuccino e a comer um bolinho de canela. Falou-me da mãe, do trabalho, do seu gosto pela música, do homem desaparecido e do noivo.
- Já sabe mais sobre mim do que o meu melhor amigo!
- Fico grato.
Tornou-se a filha que eu nunca tive. Nunca senti isto por mais ninguém. Quero vê-la feliz e protegê-la. Convidei-a para vir a minha casa e agora passa lá todos os dias de manhã para me levar bolinhos de canela. A Maria Luísa também se afeiçoou a ela. Chama-lhe Gigi e a Regina trata-a por Malú. Descobri que adora tocar piano e por isso tenho lhe dado algumas aulas. Tem estado mais feliz e concordou em mudar-se para cá para se afastar da confusão e do Gil.
Num dia em que a Gigi não veio almoçar um rapaz trouxe uma carta. Não tinha morada dizia apenas: "Para a Regina".
Mal chegou entreguei-lhe a carta. Percebi logo de quem era e ela também. Correu para o quarto e trancou a porta. Duas horas depois desceu. Tinha os olhos vermelhos e a cara inchada deixou cair a carta e saiu.
" Querida Regina,
Desculpa não te ter dado notícias mais cedo. Saí da vila mal me disseram que tinhas fugido, queria encontrar-te e dizer o que sentia. Mas depois de andar de terra em terra sem te encontrar pensei que talvez, talvez não o querias ser. A minha vida parou por causa de ti e agora que estás com o Gil o melhor é eu seguir em frente e fazer aquilo que vim cá fazer.
A vila é demasiado pequena para mim. Não sei o que dizer. Não penso voltar. Espero que sejas feliz e por muito que eu quisesse, não posso pedir que esperes por mim. Quem me dera dizer-te algo para te confortar, mas não consigo. Quanto menos te disser menos sofrerás.
Bóris"
Pobre Gigi. Vou fazer de tudo para que seja feliz, mesmo que tenha de ser ao lado daquele ... Gil.
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