domingo, 7 de setembro de 2008

Mia famiglia é tutto para mim!

Algures, à noite, batem à porta de uma cabana no meio de um campo.
- Buona sera, amico! Come stai?
- Não o conheço de lado nenhum...O que é quer? E o que é que está para aí a falar? Não dou esmolas...
- Non! Io sono un italiano!
- Que bom...Mesmo assim não dou esmolas e ainda para mais a esta hora da noite, amigo! Vá dormir!
- Aspetta un piccolo!
- Epá! Não sabe falar português, caraças? E espetar um picle onde e a esta hora da noite para quê? Ai, ai...ai...está a gozar comigo? Maria! Trás a caçadeira!!!
-Non, non, non, non! Pronto! Mi dispiace! Desculpa...Falo un piccolo português... avó de minha mulher era portuguêsa e...
- E ele a dar-lhe! Agora partimos para as ofensas? Maria, o gajo está me a chamar picle! Rápido!
-Non! Segnor! Olha...Io estou com a minha famiglia...Mia mogle doente na carrello, carroça, mi dispiace, desculpa, digo. Mia moglie vai ter un ragazzo...(ouve-se um grito de mulher vindo da carroça)...agora!- Foi difícil a nossa integração quando viemos de Pepellini, da nostra Itália. Ah...saudade! Lembro-me como se fosse hoje: Nós viemos de asino, de burro, caspita! Já estou em Vila Nova de Coentro à tanto tempo e ainda me foge a boca para as parolas italianas...Palavras, caspita! Chiça! Enfim. A viagem foi dura, muito dura mesmo...A minha mogle estava grávida do nosso pequeno Nico, um menino de ouro! O Nico já nasceu em Vila Nova de Coentros, ou pelo menos perto...Naquela noite, à dois anos atrás, só queria ver a minha mogle benne e o mio ragazzo nos meus braços! Quando o homem percebeu que a situazione era grave, rapidamente abriu a porta. A mogle do homem acolheu-me a mim e à minha famiglia na sua casa e foi lá, após muito sofrimento da minha querida Francesca que o Nicola nasceu! Ah...ma come é bello il mio figlio! Oh...uma pérola! As outras crianças esperavam na sala, come io e...ah, a minha sogra Belina.Depois de dois dias na casa dos senhores Lopes, decidimos que tínhamos de tocar a nossa vida para a frente! Tínhamos agora quatro bambini e boas mãos para trabalhar. Em Papellini tínhamos um restaurante que dava muito lucro...Mas perdemos tutto para o fascismo que nos levou a casa e matou a nossa cadela...Toscana, Toscaninha... O Duce, Vussolini, é muito severo...Papellini era alvo de caçadas a desertores e comunistas! "Ma noi siamo cozinheiros! Não comunistas!", dizia eu à policia. Não adiantava nada. Bom, fugimos porque ficámos sem niente! Uma humilhação! Matteo, mio figlio mais velho ia para a guerra, minhas figlias que seria delas? E Nico? Viver num país assim? Non! Segnor Lopes contou-me que em Portugal a situazione também não era a melhor, mas mesmo assim decidi arriscar! O segnor Lopes tinha uma casa a venda em V.N. de Coentros e io, com as minhas economias vou pagando a renda daquele que agora é o nosso lar.
A casa do segnor Lopes era ainda um boadinho longe de Vila Nova de Coentros e, por isso, mas não só por isso, demorámos uns dois dias a lá chegar. No meio de paragens para comer e dormir un piccolo, porque me cansava conduzir o burro, vi-mo-nos meio de um tiroteio!Burro gritava!Mia sogra zurrava! Mia mogle gritava! Mias figlias gritavam! Mio figlio gritava! Io gritava! Nico dormia.
-Comunistas, papa! Comunistas!- Gritava Eleonora, mia figlia, una beleza!
- Cala-te miúda! Se gritas isso outra vez não sei o que te faço!- Dizia um dos homens que iam a cavalo- Isso é uma ofensa para nós! Uma ofensa!- Continuou o cavaleiro. Logo conclui que não era comunista ma si un fascista, maledeto! O maledeto agarrou mia babina! Desespero.
- Larga a minha irmã!- Grita Matteo- Ou desfaço-te!- Ma mio Matteo non tinha espada ou arma alguma e caiu ao chão apenas com uma estalada estúpida de um oficial maledeto e ranhoso...No meio do tiroteio havia outros signores que não eram iguais ao maledetos e que naquele instante em que mio figlio se preparava para resgatar Eleonora, fugiram. Eram maiores que os outros, mais elegantes e de bom porte. Depois da Matteo cair inanimado com a chapada do oficial io vi mia figlia partir a cavalo com aquele maledeto fascista. Gritava, esperneava mas não saia daquele maledeto cavalo...
- NON! ELEONORA!! Figlia!- gritei. Todos chorámos para aí...uns dez minutos perché dopo ouvimos de novo o galopar de um cavalo, um apenas. No meio da fumaça vi a cara de Eleonora e agradeci a S. Stefano, por ter trazido mia figlia!
- Figlia!
- Papa!Mamma!- Um homem trazia Eleonora. Um homem que non era maledeto, era dos outros! Era um comunista? Caspita! Cordialmente saiu do cavalo, pegou na Eleonora como uma principessa e entregou-ma. A minha figlia correu para mim e para os braços de sua mama. Que felicidade! Eis então que Francesca, mia mogle diz:
- Quem é você, cavaleiro? Obrigada por trazer a nostra Eleonora.Como lhe podemos retribuir tal feito?- Ele apresentou-se.
- Boris- a sua pronuncia era estranha...Parecia árabe!- Sou russo- ou russo, é tutto igual- estou clandestino aqui, confio em si para negar que me viu se lhe perguntarem tal coisa.
- Com toda a certeza- disse Francesca- Mas onde vai agora? Vai ter com os seus companheiros?
- Agora já os perdi...Vou sobreviver até os encontrar novamente.- E foi a partir desta frase que o Boris, o árabe russo, veio con noi para V.N.Coentros. Ele salvou a nostra bambina! Era o mínimo que poderíamos fazer por ele. Vila Nova de Coentros era uma vila simpática, pelo menos às quatro da manhã do dia 13 de Maio de 1940 era.
-Oh, mamma mia! Ma che bella casa!- Disse eu ao ver a bella casa que o segnor Lopes nos tinha disponibilizado.
- Shiiiiiu, seu animale orribile! Queres acordar toda a gente?- Disse, carinhosamente a mia carina sogra. A casa: dois andares, não era muito grande, é certo, mas era óptima! Era grande o suficiente para todos e...para um belo negócio que hoje ajuda a pagar a renda!- Que achas amore mio? Hã? Aqui vamos ser felizes!
- Ecco una bella casa, amore mio! Aqui nascerá o Dolce Piacere!
- Dolce Piacere, amore? Come na nostra Itália?- disse eu, ao sentir uma lágrima no canto do olho que insistia em descer de saudade.
- Si!
- D'accordo, amore mio! Mia Francesca! D'accordo!

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