sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Os peixes saltaram do aquário

(cantam) "Sou um sonhador, sou um sonhador e pescadoooooor! Sou um sonhador, gosto de sonhar e vou pescaaaaaaaar! Sou um sonhador, sou um sonhador e a minha amadaaaaaaa! É a mulher, é a mulher mais cobiçadaaaaaaaaa!"
- Por favor, dona Adelaide! Não cante...Ou cante outra coisa que não a nova canção do Marco Guelras!
- Oh! Ismael de um raio! Quem és tu para me mandares calar, seu peixe espada...
com um rabiosque tão agradável e extremamente atractivo...
- Disse alguma coisa, senhora Adelaide? Precisa de mais ameijoas? Posso ir busca-las ao armazém se quiser...
- Não, não disse nada! Vai limpar o tapete de entrada da peixaria.
- Mas já o limpei nove vezes hoje!
- E depois? Limpas dez que é um número mais redondinho e cheeinho...como esse rabinho.
- Como o quê?
- Como quê o quê?
- O quê de quê?
- Quê? Esquece! Vai limpar o tapete!- Oh, meu Deuzinho! Aquele judeu põem-me doida! Já fiz de tudo para me livrar deste pecado que me atormenta! Tudo, Deuzinho! Mas não me sai da cabeça o Ismael...O judeu. Tem hábitos estranhos, é sujinho, suadinho, porquinho, mas atrai-me com aquele cheiro a pescador judeu! Que posso fazer, Deuzinho? Hã? Dá-me um sinal!!
- Dona Adelaide, pode ver se tenho o bolso das calças descosido?
- Hã?
- Aqui o bolso de trás...Senti uma linha a puxar e são as minhas únicas calças...- Disse o judeu virando-se de costas para mim e evidenciando o bolso com as suas mãos judias- Vê alguma coisa?- disse ele.
- Isto é um sinal???- Grito eu para o meu Deuzinho.
- Um sinal?? E é maligno? Consegue ver isso?- disse o judeu entrando em desespero.
- Ai...-suspirei- Não há nada a fazer...-disse eu.
- Vou morrer...- disse o judeu.
- Cala-te Ismael! Está tudo bem contigo, estás óptimo, até de mais, vai limpar o tapete.
- Outra vez, dona Adelaide?
- Siiiim...- Deuzinho...Não estás a ser agradável aqui para a tua peixeira! Aquele foi o sinal? Um sinal luxurioso? Que queres que eu faça? Sou uma mulher sozinha, o meu falecido teve a sorte de morrer dois dias depois do casamento...Tenho de sobreviver! Enfim. Vamos ver o que o talhante tem hoje para a venda. (Pega nos binóculos e vai para a porta da peixaria) Hum...Borrego, outra vez? Está a começar a ser repetitivo...Isso é bom. Mais...Bifanas ao preço da chuva? Vai mas pagar! Mais...Coelho a metade do preço? Animal...
- Podes parar de espiar, sua peixa!!- Gritam da rua- Estou-te a ver!!!- Era o talhante.
- Não estou a espiaaaaaaaaar, seu boi! Estou a tentar...ah...ver as estrelas!
- De dia??- continuou ele.
- Elas estão lá! Só não vê quem não quer!- E dito isto acabo a minha espionagem. Aquele talhante de segunda vai mas pagar! Hum...que cheirinho é este? Oh...cheira a lasanha dos Bellini...E hoje nem tenho sobras de peixe e está a chegar a hora do almoço...Vou la buscar um bocadinho para mim e para o judeu.
- Queres lasanha, Ismael?
- Quê? Eu? Lasanha? Oh...muito obrigado senhora Adelaide eu nunca...- E não ouvi mais nada. Saí da peixaria e segui aquele cheirinho tão delicioso. Entrei no restaurante.
- Buon pomeriggio, senhora Adelaide!- Disse a senhora Francesca, um amor de mulher, boa mãe, boa patroa, uma mulher às direitas-
Che ritornare qui?
- Hã? Não, não quero isso, quero lasanha.
- Posso lhe fazer um molho bom! Como quer? Bolonhesa? Carbonara? Pimentos? Hã? Diga!
- Tu não lavavas pratos?- disse eu fria e cruamente para aquela pessoa que desprezo, menos quando vai comprar peixe, porque anda sempre atrás do meu...hum, quer dizer, do Ismael! Do meu funcionário! O judeu não trabalha porque esta lolita anda sempre atrás dele! O Dário...
- Lavava! Agora sou...molhista! É...a senhora Francesca promoveu-me!
- E vais ganhar mais por isso?
- Não...
- Então cala-te.
- Ah! Perguntava o que a trazia aqui...A nossa lasanha, já vi!- continuou a senhora Francesca- Ora espere só un piccolo porque mio Guiseppe está a acabar...E hoje nem temos a Regina, estará doente?- Perguntava-se ela a ela própria. Perguntou a uma das miúdas, nunca as sei distinguir, onde estava a moça, a Regina, e a gaiata também não sabia onde parava da balconista. Naquele momento Matteo, o filhote mais velho, um pedaço de mau caminho, mas não ultrapassa o judeu, trouxe a velhota, uma chata.
- Francesca- disse a velha- Visita il Bóris?
- Non, mamma. Ainda não vi o Bóris hoje.
- Se calhar está a dormire...- disse a velhota. Mas, achei estranho...A dormir? À uma da tarde? A dona Francesca também me pareceu preocupada. De repente entra o Gil, bom rapazito também, e diz que pediu a mão da miúda em casamento vamos lá ver no que isto dá, pela porta a dentro.
- Dona Francesca! Dona Francesca! Viu a Regina?
- Non, ragazzo! Non vi! Mas ela deve estar no quarto, non?
- No quarto não está- disse uma das gémeas vinda das escadas.
- Deve ter ido ás compras!- disse eu.
- Essa tarefa não lhe cabe a ela- disse o Matteo, ai que homem!
- Ma donve é la Regina? Ho bisogno di aiuto in cucina!- disse o senhor José vindo da cozinha.
- A ajuda pode esperar!- Disse o Gil, o moço estava alterado. Ora bem, e não era para mais? A Rapariga ainda ontem foi pedida em casamento e hoje já foge! Será que fugiu?- Temos de a encontrar!!!- Desespero total. Todos foram procurar a cachopa e eu à espera da lasanha esquecida. Conclusão:A rapariga não estava na vila. Quando voltámos todos ao restaurante ouviu-se um grito vindo de lá de cima, da casa dos Bellini:
- NOOOOOOOOOOON IL MIO VERO AMORE PARTIU! DEIXOU-ME!! AMOREEEEEE- Era a velhora, a senhora Belina. Depois de várias coisas faladas em italiano percebi que o Bóris também tinha desaparecido...Oh!! Que vergonha!
- Fugiram juntos?- disse eu.
- Acha? A Regina amava-me...- Disse o feinho Gil.
- Bom...- disse uma das gémeas- Não é bem assim...- O rapaz ficou de todas as cores possíveis. Estava a transpirar. Estava um bocado obcecado por aquela moça. Ela fez bem em fugir. Naquele momento entra a dona Pureza pelo restaurante a dentro.
- MALDITOS ITALIANOS! ONDE É QUE A TÊM? ONDE? VÁ DIGAM! SEI QUE RAPTARAM A MENINA ROSÁLIA E QUE A TÊM ESCONDIDA! ONDE É QUE ELA ESTÁ? NA MASSA DE UM DESSES VOSSOS COZINHADOS DO PECADO?- A mulher estava louca. Tentei acalma-la e perdi a vontade de comer a lasanha com as palavras dela.
- Tenha calma, dona Purezinha! Aqui ninguém têm ninguém em lasanhas! Digo...escondida!
- Eles queriam rapta-la, dona Adelaide...Não lhes convinha a menina Rosália!
- Menzogne! Mentiras! Cale il suo vecchio orribile- O senhor José exaltava-se- Aqui non está nenhuma menina Rosália!
-Noi non siamo rapitori!- Dizia a dona Francesca. Decidiram chamar o senhor João Silva. O Gil estava acabado e chorava com a cabeça encostada ao ombro do seu irmão, ai...agora que vejo...o Amadeu está bem agradável...O senhor José e a dona Francesca discutiam com a dona Pureza que insistia em ver a casa e a cozinha e o quintal, tudo! As gémeas começavam a atender os primeiros clientes e o Matteo confortava a senhora Belina que chorava e dizia coisas indecifráveis...A situação estava tão preta como uma enguia saúdavel...Três pessoas desaparecidas! Será que duas delas fugiram para viver o seu amor escondido? Oh! Que lindo! Os dois peixinhos decidiram saltar do aquário e ir viver para o mar, felizes e com sal! Mas depois há a menina Rosália que nada tem a ver com os moços...Hum...Será um rapto e uma fuga? Mas quem é que quer raptar a menina Rosália? Bom, a lasanha fica para o outro dia, vou mandar o Ismael ir limpar mais uma vez o tapete da entrada, isso sim alimenta.

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