- Nico! Não mexas aí! Mamma! Nonna! O Nico está a comer uma bola de Natal!- O Natal chegou e estamos todos felizes. Bom, falta ainda algum tempo, umas duas semanas, mas toda a gente já está a fazer a árvore de Natal- Mammaaaaaa! O Nico está a desfiar os ramos da árvore! PAFF!- Buáááááá!
- Mamma! O Nico está a chorar!- Os meus irmãos mais novos adoram fazer a árvore (ou desfazê-la). Este ano optámos por fazê-la lá em baixo, no restaurante. Fica um ambiente muito bom, principalmente quando ligamos a lareira. Com aquele cheirinho a pão, a lareira acesa e a árvore de Natal a dar cor ao ambiente, fica muito aconchegado e bonito. Eu e o Amadeu andamos a colocar em cada mesa uma vela pequena vermelha, que fica acesa durante a refeição dos clientes. A mamma e o papa estão na cocina e a nonna Belina está sentada na sua cadeira, agora, com o Nico ao colo que está cheio de folhas de pinheiro verde na boca. Naquele instante entra a Regina no restaurante. Desde que foi viver com os Paiva e Castro anda mais bem vestida, calçada e penteada. Está mais bonita, mas não mais contente. Vinha com um papel na mão, uma carta pareceu-me e entrou directamente para a cocina. Ficámos a olhar uns para os outros. Passava-se qualquer coisa de grave, a Regina era sempre tão simpática...Comecei a limpar o chão, a sujeira que o Nico tinha feito, e a Regina subiu para o quarto com a mamma e com a Constanza. Passado algum tempo, já estávamos a servir os clientes, a Regina desce e começa o seu trabalho. O Gil aproxima-se dela. Ela mostra-lhe um sorriso, que ao ele virar as costas se desfaz...Eu andava de um lado para o outro a servir as pessoas, a época natalícia leva sempre mais gente a jantar fora, mas via que de vez em quando a Regina tirava o papel branco do bolso do avental, lia, e guardava outra vez. Decidi ir falar com ela.
- Então? Passa-se alguma coisa?
- Não...Está tudo bem- disse ela, entregando um copo de água a uma miúdinha que foi ao balcão pedi-lo- Porque perguntas?
- Porque acho que estás triste...Que papel é esse que escondes no bolso?
- Não interessa.
- Sou teu amigo, Regina! Podes confiar em mim- Ela ficou a olhar para mim.
- Não há nada para te contar, Matteo. Aliás, espalha a noticia que hoje há uma nova convocatória do Dolce Piacere.
- Então sempre há qualquer coisa para contar...
- Espalha a notícia. Vai ser à meia noite, como sempre. Diz ao Gil, principalmente ele, para não faltar.
- E o papel que tens no bolso?
- O papel...pode ser, por exemplo, o endereço da galardoaria do senhor Custódio...O teu pai acordou com ele de comprar lá os touros para bifes.
- Hã? E-e-eu nem sabia q-que ele tinha uma galardo...quê?- Bolas! Que queria ela dizer com aquilo? Deixei-me de coisas e fui atender o senhor e a senhora Paiva e Castro, que agora são frequentadores assíduos do restaurante. Quando os vemos chegar já sabemos que a caixa daquele dia vai triplicar de lucro! A meia noite chegou e, como resultado de eu ter espalhado a notícia, lá estava toda a gente, assim como o senhor e a senhora Paiva e Castro.
- Regina, carina...Diz o que querias de nós- Disse a mamma. E ela começou.
- Bom, primeiro queria agradecer por estarem aqui até tão tarde, principalmente a Malú e o senhor Castro, porque sei que se deitam mais cedo. Depois queria dizer uma coisa particular a uma pessoa mas que se vai alargar a, pelo menos, outras duas, ou quatro, não sei...
- Desembucha figlia mia!- A nonna estava impaciente, o Nico tinha-lhe feito coco no colo.
- Eu aceito o teu pedido, Gil. Eu caso contigo- A alegria foi quase geral! Todos se levantaram dos lugares onde estavam sentados, o Amadeo abraçou o Gil e o Gil começou a chorar tanto, mas tanto, que aceitou o lenço ranhoso da nonna Belina para limpar a cara. Só a minha irmã Constanza não gostou muito da ideia.
- Ma porque? Regina, e o Bóris??- disse ela, desesperada- Não estás a fazer o que o teu coração manda! Ele pode voltar!
-Não volta, Constanza!- E dito aquilo, rasgou em mil bocados o tal papel do bolso do avental. Uma carta. A Constanza começou a choramingar e correu para o seu quarto, seguida da Eleonora. O resto das pessoas estavam muito felizes. O Gil chegou-se ao pé da Regina e mais vermelho do que nunca, mas com as orelhas num tom amarelado, disse que a amava e que ia fazer dela a mulher mais feliz do mundo! Houve um beijo e um abraço cheio de sorrisos, que após ser deslaçado fez um dos sorrisos fechar-se, o da noiva. O casamento ficou marcado para dali a uma semana e os preparativos começaram logo no dia seguinte. A boda seria no Dolce Piacere, claro! E o vestido de noiva seria encomendado de Moscardo.
- Matteo, figlio, podes levar a Regina na carroça, para a prova do vestido?
- Agora, mamma?
- Si, agora...Vou chama-la.- Agora que me estava a preparar para ir às aulas de toureiro. Ficam para depois. Fui a correr ter com o sr. Cristóvão para lhe dizer que naquele dia não ia e preparei a carroça para levar a noiva. No caminho ela não me parecia uma pessoa que ia casar dali a uns dias. Parecia que ia para um enterro. Até de preto estava vestida.
- Então, Regina? Preparada para a primeira prova do vestido?- perguntei eu. Não sei muito dessas coisas de vestidos e provas. Provas só sei mesmo as dos chouriços ou as da bolonhesa.
- Sim...Ah! Queria te pedir desculpa por te fazer faltar à aula de toureiro...- Parei o burro!
- Espera lá! Como é que sabes disso?
- Como? Não sei...acho que...que se sabe!
- Todos sabem?
- Não sei...eu sei- Amadeu...Juro que mato aquele empregado bufo! Bom, mas continuei.
- Não contes nem à mamma nem ao papa, por favor!
- Está descansado.- disse ela. Estava mesmo triste a ragazza.
- Oh, Regina- disse eu, parando outra vez o burro, que chateado começou a comer umas ervas que estavam no caminho- Mas o que é que se passa contigo? Estás abalada, triste...Vais te casar! Eu conheço-te- Foi então que ela me contou tudo o que tinha acontecido, por que tinha fugido, e o porquê de ter optado casar com o Gil. Depois de me contar, finalmente chegámos à modista que lhe ia fazer o vestido. Entrámos e eu fui expulso da sala. Fiquei sentado num banquinho à porta e quando, finalmente, abriram a porta eu pude ver a Regina vestida de noiva...Que encanto!
- É seu irmão?- Perguntou a modista.
- Nã...
- Sim, é o meu irmão- apressou-se a dizer a Regina. Ela estava linda. O Gil tem muita sorte em ter a Regina como sua mulher...Onde andará a minha "Regina"? Bom, na vinda, e como ainda era cedo, decidi ainda tentar apanhar uma aula na galardoaria do senhor Custódio. A Regina foi comigo e ficou a ver-me tourear. Depois da aula acabar, fomos novamente de carroça para casa. Iamos ainda a uns metros da gardoaria e...
- Matteo, pára o burro. Esqueci-me de uma coisa na touraria.
- Não é touraria é...
- Eu já volto!
- Mas vamos lá de carroça, é mais rápido!
- Não! Eu a correr chego lá num instante! - disse ela, já a correr em direcção ao pasto do senhor Custódio, com o vestido a esvoaçar. Fiquei à espera dela. Esperei, esperei, esperei, esperei, esperei...
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