- Agora é que vai ser, dona Adelaide!- disse e Ismael ao colocar a placa que diz "vende-se congelados", na montra da minha peixaria- Vão ser só clientes!- Deus te ouça judeu! Deus te ouça! Vamos gastar mais dinheiro mas vai ser melhor. Espero que ganhemos com isso...Senão, olha, não sei. Mas vai correr tudo bem!
- Vai pois! Olhe, lá vem um cliente!- Era o...Senhor Cristóvão? A campainhazinha da porta tocou e eu fiquei a olhar para ele atrás do balcão. Levantei a cabeça e empinei o nariz.
- Que é que quer daqui? Já se fartou de comer carne?- Ele andava pela peixaria e inclinou-se para a arca dos congelados.
- Lulinhas?- disse ele- Polvinho? Carapauzinho? Salmãozinho? Muito bem...Era de esperar.
- De esperar? Como assim?- disse eu já de mão na anca na anca e no avental.
- Ora, ora, senhora Adelaide...Já sabia que ia começar a congelar o seu pescado, pois não tem qualquer higiene aqui! Assim congelado, sempre fica mais resguardado e não se estraga tanto!
- Mal criado! Atiço o judeu contra si e vai ver!
- Tenho cá um medo- disse ele entrando dentro do meu balcão e vendo-me de chinelas ortopédicas brancas, coisa que não gosto que as pessoas vejam.
- Olhe, digo-lhe uma coisa senhor Cristóvão: Não há peixaria mais asseada que a minha seu...
- Seu...?- Ele avançava sobre mim, aquele homem corpulento e suado e cor-de-rosa! Gritei.
- ISMAEL!- Mas o Ismael não veio, deve andar a galantear a espanhola dos Paiva e Castro. Sirigaita!- ISMAEL! Não se aproxime!- e saquei do facalhão do bacalhau- Eu espeto-lhe a faca nessa barriga e você rebenta como um balão de ar!- Mas o homem continuava a avançar!!- ISMAEL! AI, CREDO!- O senhor Cristóvão estava possesso, mas que mal fiz eu? De repente ele vem direito a mim, escorrega numa escama de qualquer coisa que estava no chão e no próprio gelo que caiu da bancada e escorrega! Eu largo a faca, vou auxiliar o homem e ainda o apanho antes de se estatelar no chão. Ficámos tão próximos como nunca antes! Foi a primeira vez que olhei para ele nos olhos. Tinha uns olhos claros e era tão, tão...cor de rosa. Ele olhou também para mim. O tempo parou. Parecia que estava a ver aqueles filmes das Américas. Ficámos os dois a olhar, impressionados pela beleza dos...da minha beleza, claro e...não aguentei mais com ele...Caímos no meio do chão. Olhámos ainda mais um para o outro, agora caídos no chão da peixaria. Ele cheirava a carne e eu cheirava a peixe, juntos formamos um novo aroma...um aroma tão agradável, tão...mágico. Naquele instante toda eu tremia e...
- Dona Adelaide...
- Sim?
- Você...
- Sim?
- Você...cheira a mexilhão.
- Oh! Recebi agora, é fresquinho.
- Dona Adelaide...
- Sim?
- Você...
- Sim?
- Você...- E enrola-mos-nos os dois. Sim, sim! Enrola-mo-nos! O senhor Cristóvão olhou para mim, eu fiz beicinho, como nos filmes, e deu-me o beijo da minha vida...Em moça namorisquei muito, mas nada como aquele beijo. Mesmo à cinema, como nunca pensei ter: Um beijo de rodar! O cenário era lindo, o chão cheirava a peixe e tinha pequenas escamas e viscosidades que se impregnavam no meu cabelo. O beijo sabia a borrego frito, mas era tão gostoso. Já não tenho idade para isto, ou tenho?
- Dona Adelaide?- Opss...O Ismael encontra-nos. OH! O ISMAEL! TINHA ME ESQUECIDO! E AGORA? Levanta-mo-nos rapidamente.
- P-p-pois, senhora Adelaide...ISTO NÃO FICA ASSIM ESTÁ A OUVIR? HAVEMOS DE TERMINAR ESTA...ESTA LUTA! OU TIRA DALI OS CONGELADOS OU EU...EU...EU NÃO SEI O QUE LHE FAÇO!- E saiu da peixaria a correr.
- Estavam à luta?- Disse o Ismael com um carregamento de gelo nos braços.
- Oh! Estávamos pois!- disse eu recompondo-me e ajeitando o avental. Meu Deus, onde andam os meu óculos?- Ele partiu para cima de mim como um porco bravo!
- E não gritou por mim??
- Gritei, Ismael! Gritei, mas tu não ouviste...E eu sei me defender!
- Podiam-se ter matado!
- Não, era só para o assustar! Isto agora não acontece mais, ele já aprendeu a lição!- espero que não.
- Foi muito arriscado! Se quiser eu vou lá e acabo com ele! E é já!
- NÃO!- Gritei rapidamente- Não, porque não quero mais violência. E tu, vá, vai limpar o tapete da entrada.
- Hã? M-mas dona Adlai...
- Ismael? Não questiona! VAI!- Ai...que aventura. O que se passou, afinal? Foi um sonho? Ai...olha-me ali o Ismael a limpar o tapete. Que homenzarrão! Mas o senhor Custódio...Nunca ninguém me tratou assim! Que talhante! Saí de trás do balcão e fui até à porta da peixaria. Estaria a sonhar? Fui atacada por um talhante e agora vejo a menina Rosália?? Pestanejei vezes sem conta mas era ela.
- Ismael? Aquela é a "Panelona"?
- E não é que é ela dona Adelaide?- Era mesmo!
- Oh, menina Rosália!- Chamei.
- Senhora Rosália, se faz favor. Agora sou senhora Rosália- disse ela. Isso quer dizer que ela já...
- Desapareceu assim sem dar explicação? Porquê? Todos ficamos muito preocupados.
- Foi de repente! Recebi um telegrama do meu "namoradinho de guerra", hi hi hi- riu-se terrificamente- e fui ter com ele à Alemanha, onde estava a combater.
- Foi para a guerra?- Disse o Ismael.
- Não, propriamente, judeu. Foi assim, ai que maçada estar a contar isto a toda a gente: Saí daqui naquela madrugada, fui ter com ele e oficializamos a nossa relação?
- Casaram-se?- perguntei.
- Casar, casar já estávamos casados, por procuração.
- Mas ele é de cá?? Foi para a Alemanha e casaram por...que confusão! Mas já se conheciam?
- Judeu...posso acabar?
- Faça favor...
- Ah, bom, obrigada. Sim, os pais do Wolfgang são de Coentros. Imigraram para a Alemanha cedo. Nós conhece-mo-nos cá, numas férias...Depois ele foi para a guerra, eu para a drogaria, uma lástima. Casámos por procuração e eu achei que agora era a hora de oficializarmos a nossa relação, já que ele tinha um tempinho lá no negócio dele: A guerra.- Eu e o Ismael estavamos especados a olhar para a..."Panelona".
- Mas desculpe, menina Rosália, todos pensávamos que a senhora era...- disse o Ismael.
- Senhora Rosália!- disse ela.
- Era...- continuou ele- era...bom, não gostava de...
- De casar!- disse eu rapidamente, pisando fortemente o judeu lava tapetes- Pensávamos que era solteira...Enganou-nos bem...-disse na brincadeira. Depois apareceu o marido dela. Que belo homem.
- Bom- concluiu ela- agora vamos para o nosso ninho de amor...chauzinho!- E lá foram os dois de braço dado, deixando todos de queixo caído. Inacreditável. A menina Rosália? Casada? Com um alemão rico?? Sim, porque ele parecia rico! Lá foram eles rua a baixo, aos beijinhos...que...inveja! Naquele momento olhei para o talho. O senhor Custódio estava também à porta do seu estabelecimento comercial. Olhei para ele, desviei o olhar, como se não fosse nada comigo, voltei a olhar e...oh! Piscou-me o olho com cara de maroto? Ai, meu Deus! O que foi aquilo atrás do balcão? Aquele beijo arrebatador...Será que chegou a minha vez? Eu, que estou tão congelada como os mexilhões e as lentilhas e como os pequenos chocos que olham para mim com um ar sofredor? Ai, Adelaide, estás muito saída da concha!
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