segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Carne!

- Oh, Dário!- Disse eu, numa bela manhã em que tinha aberto o meu talhinho e estava encostado, como todos os dias, à ombreira da porta do meu estabelecimento, à caça de clientes- Anda cá!
- Oh, senhor Custódio, agora não dá! Hoje é o meu dia de folga e vou aproveitar a ir a um salão de beleza novo que abriu lá para os lados de Tutano Verde...Na Vila sem Nome! Dizem tão bem daquilo...Não quer vir?
- Oh, moço achas? Alguma vez eu ia a uma coisa dessas? Olha lá, sabes se ali a Adelaide tem peixe fresco hoje?
- Ela costuma ter sempre, sr. Custódio. Nunca me falhou, o peixinho dela é sempre fresquinho. Eu sei porque até o dava à minha gata que estava prenha e nessas coisas é preciso muito...
- Sim, sim, sim, já lá foste hoje?
- À peixaria?
- Não, à drogaria!
- A menina Rosália agora também vende peixe? Não me diga! Que bomba!
- Não! Menina és tu...bom, bem, deixa lá, vai lá cuidar dos teus cascos ao salão...- E lá foi ele. Uma pessoa tem de cuidar do seu negócio. Eu tento cuidar pela via da lei! Mas parece que a senhora Adelaide gosta muito de "roubar" os outros...Conto de manhã as minhas morcelas, os meus chouriços e as minhas farinheiras. Assento quando vendo algo e à noite volto a contar. Há dia em que não bate certo as contas, o que me leva a pensar que foi roubado! E eu sei que foi ela! Aliás, a mando dela, porque ela manda cá vir o judeu, o Ismael, coitado, roubar as chouriças...E não é paranóia minha! Não tenho culpa que eu tenha mais clientela, não tenho! O peixe não enche barriga e aquelas pescadinhas magrelas e aquelas sardinhas anoréticas da Adelaide não prestam nem para dar aos gatos vadios! Olha...lá vem ela. Que peta me irá pregar esta manhã?
- Olá, senhor Custódio, como vai a venda? Hoje baixou o preço das costeletas de borrego? Hum...não sei para quê, mas está bem.
- Não sabe para quê? Digo-lhe já que têm saído muito as costeletas de borrego!
- Acredito, acredito- disse ela- e compreendo-as perfeitamente! Deve ser impossível estar 24 horas dentro desse estabelecimento cheio de ácaros e sujidade! Nem mulher tem para lhe limpar essa pocilga...
- Não lhe admito! Que falta de respeito...- As pessoas e os possíveis clientes começavam-se a aproximar- O meu talho é o mais limpo da região! E na sua peixaria só não se nota tanto o cheiro à imundice e à porcaria porque se confunde com o cheiro horrível do peixe! Ai, que nojo, até se me está a dar a volta ao estômago...
- Você é um ladrão!
- E você? Sua ladra de salsichas! Pensa que não sei que me roubou o úçtimo rol que eu mesmo fiz da minha criação? Eu crio os animais que vendo! Está a ver?Q-u-a-l-i-d-a-d-e!E você? Tem um aquário em casa e mata os peixinhos dourados...D-e-s-p-r-e-s-í-v-e-l!- A velha ficou tão alterada e chocada que saiu às pressas das portas do meu talho e se encafuou no seu covil de enguias. Não aguento aquela peixeira de uma figa! Concorrência foleira! Fiquei alterado também, confesso. Fiquei mais vermelho do que é costume e senti um aperto no peito. A multidão dispersou, eu entrei para o meu estabelecimento de trabalho, encostei-me ao balcão das bifanas e respirei fundo uns bons 2 minutos.
- Sente-se bem, senhor Custódio?- disse alguém entrando no talho.
- Oh, filho...Como estás Matteo? Sim, isto já passa...foi aquela mulher! Aquela peixeira malcriada!
- Tenha calma- disse o rapaz- O senhor Custódio não se pode enervar...Ainda me lembro, até foi uns dias depois de termos chegado aqui à vila, já à dois anos, como o tempo passa, que tivemos de chamar o médico de Moscardo para o examinar.
- Isso foi quando me roubaram 3 touros da minha galardoaria! Nada me tira da cabeça que foi ela, a peixeira...juro-te! E eram os melhores...Iam para a corrida de touros em Moscardo...Iam ser toureados pelos melhores toureiros da região!
- Como é que a senhora Adelaide ia roubar 3 touros?- disse o rapaz dos Bellini.
- Oh, filho...Tu não sabes as artes do gamanço. E a ti te garanto que aquela peixa sabe as todas!Mas que vens aqui buscar? Borreguinho? Porquinho? Vaquinha? Coelhinho, olha...o coelho de hoje é do melhor!
- Não...Bom, na verdade vinha saber das aulas...
- Aulas?- Não me lembrava de nada parecido com- Aulas! Ah! Sim, sim...De tourear não é, filho?
- Sim...Mas eu não quero que o meu pai saiba.
- Então porquê? Ele ia ficar orgulhoso! Há um ano que andas naquilo, já sabes tanta coisa! Tens mais é de mostrar que sabes. E as miúdas? Uhh...ficam doidas quando vêm um homem de colanttes! Fica ali os abafadores encaixados de lado e...
- Não...Não é por isso senhor Custódio. Eu apenas não quero que a minha família saiba.
- Não percebo porquê, mas está bem. Vou falar com o professor. Em princípio, mas em princípio, hã! A aula fica para depois de amanhã às sete.
- Da noite!?- Disse o rapaz espantado, admirado, como as garoupas que a Adelaide tem lá naquele balcão gelado do seu estabelecimento glaciar.
- Pois...o toureiro só pode a essa hora, filho. Tens de te sujeitar!
- Mas essa é a hora dos jantares no Dolce Piacere. Não podia ser às sete da manhã? Eu acordo muito cedo para ir ao mercado, eu podia dar um pulinho lá. Por favor, sr. Custódio, fale lá com o toureiro. Assim a minha família ia suspeitar.
- É parvo esconderes uma coisa destas da tua família, filho. Tourear é uma arte! É dançar com o touro. Ah! Sou tão inteligente! Alguma vez a Adelaide conseguía bailar com um peixe?? Hã?- O rapaz olhou para mim confuso- Nunca! AH! Ah! Mais uma bandarilha para lhe espetar naquela cabeça oca quando tivermos num dos nossos despiques! Pescar é uma arte? Non! Non! Ai....- Suspirei eu de felicidade. Depois lembrei-me do miúdo que continuava à minha frente- Ah! Sim, filho, Matteo, está bem, eu vou ver o que posso fazer em relação aos horários.
- Muito obrigado, senhor Custódio. A sério...
- Ah...Mas em troca levas aqui um salsichão picante, filho, que é de uma das minhas melhores criações! Não há salsichão como este! Não há! Qual peixe espada, qual espadarte da merdaleja! Chichinha é que é bom!- Lá ingrupi o rapaz e ele lá me levou umas gramas de salsichão. Bom moço, inseguro e...não muito compreensível. Mas, desde que ele me pague as aulas que tem lá com o toureiro meu amigo, por mim tudo bem. Depois disto fui contar as minhas chouriças novamente. "Ora bem, eram 13...Não! Nãaao! Não vendi nenhuma e já só tenho dez? Isto não fica assim!". Tinha sido aquela peixa!! Ia a sair do talho a todo o vapor para ir falar com o sr. João Silva, só ele, uma autoridade, poderia solucionar este caso, quando encontrei o Dário.
- Não foste ao salão lá na Vila dos não sei quê?- disse eu confuso ao vê-lo ali. O rapaz ia a correr estava quase sem fôlego.
- Na-na-não senhor Custódio- A bicha estava quase morta- eu voltei porque pelo caminho chegou-me a noticia que tinham sido roubados dois touros esta noite de uma galardoaria perto da sua!
- O quê? A minha é a Pasto Preto! Onde ouviste isso?- preguntei, começando a ficar ainda mais vermelho.
- Pasto Preto? Ohh, lamento...Mas o senhor foi roubado esta noite.

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