terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sou judeu...

Entretanto em Vila Nova de Coentros...
- Já lavei o tapete, já lavei o chão, já limpei as suas chinelas, já esfreguei o balcão e já parti o bacalhau às postas para a dona Pureza.
- Muito be m.
- Posso sai r daqui um bocadinho?
- Podes! Mas com cuidado! Não te quero enrabixado com a espanhola dos Castro!
- Mas dona Adelaide...Eu sou jovem! Eu tenho de me divertir! Nunca saio daqui parece que estou num daqueles campos de concentração!- A campainha da loja toca e entra alguém.
- Campos de congcentgação? Quem fauou em campos de congcentgação? Têm auguma coisa contga campos de congcentgação? É que se têm...- Era o marido da dona Panelona, digo menina Rosália, digo melhor, senhora Rosália. A dona Adelaide apressou-se logo a dizer que não, não entendi bem porquê.
- Não! Nós aqui adoramos aquilo! Ui! Até estava a dizer aqui ao jud...Ao Ismael que haviamos de la ir passar umas férias. Aquilo come-se lá bem?- Fiquei a olhar. Porque haveria a dona Adelaide de querer ir para um campo de concentração? A unica coisa que sei, e foi porque ouvi o Amadeu falar, é que põe para lá os velhos e os escurinhos...
- Comida? Sim há muita comida lá...- O homem estava desconfiado- Vim aqui compgag paga a minha Gosália um peixinho bom pode seg...uma bgbgótia!
- Abrótia? Já não temos a ultima ficou podre no...
- Não!! Temos sim senhor! Oh, Ismael...- disse apressadamente a minha patroa- Temos abrótia sim senhora! Eu vou buscar e tu vens comigo para me ajudag...ajudar! Ai, desculpe já voltamos- E pegou-me no braço e arrastou-me para dentro de casa, enquanto o alemão da Panelona ficou a olhar para o nosso marisco.
- Meu estúpido!- Disse a minha patroa, fechando a porta atrás dela- Tu não vez que se eles te apanham estás frito? Estamos os dois!
- Eu? Mas eu não fiz mal nenhum!
- Fizes-te. És judeu.
- Hã? Não estou a perceber...- Foi então que a dona Adelaide me explicou o ódio que os alemães e o seu chefe, Hitler, têm pelos judeus. Não percebi porquê, mas a dona Adelaide fez me prometer que não falava nada de nada a ninguém e que teria de ir pedir aos meus amigos para nenhum abrir a boca sobre a minha religião ou nacionalidade, porque senão eu e a dona Adelaide iamos mesmo passar umas férias perpétuas no campo de concentração daqueles senhores. Lá fome não passávamos, mas a dona Adelaide quer assim e assim será. Tenho de ter cuidado. Assim, a dona Adelaide levou a abrótia ao senhor e eu, para disfarçar, fui limpar o tapete da entrada.
- Que abgótia tão aggadáveu! Pagece mesmo de boa quauidade! Quanto uhe devo?
- Ora essa, nada! Não deve nada! Esta foi a sua primeira compra aqui e por isso não é preciso pagar um tostão!- risso parvo- Vá, vá lá para o seu ninho do amor- risso parvo- adeus, vá com Deus!- Disse a minha patroa.
- Deus? Gefege-se a que Deus?- Disse o alemão. Ele está a provocar a dona Adelaide.
- Deus! Como assim? A-ah...Deus! Nosso senhor que amo venero e tudo tudo tudo! Cristo!
- Sim- meti-me eu na conversa- Nós aqui somos muito religiosos e adoramos tudo o que mete igreja, incluindo o nosso querido padre- o alemão ficou a olhar para nós com a abrótia nun saquinho.
- Pois bem...- disse ele- Passag bem, então- E saiu da peixaria. Levei uma palmada no braço dada pela minha patroa logo a seguir.
- Ismael, ouve com atenção! Não falas, não dizes nada se vires ou ouvires ou se vier aqui um alemão! Eles parece que estão a nascer em Coentros! Ouviste? Se aparecer aqui um para comprar qualquer tipo de peixe tu vais me chamar!
- Até pescada? A dona Adelaide disse que me ia deixar vender pescada...
- Não! Agora já não vendes que é muito perigoso. Por agora temos de ter muito cuidado. Olha, vai fazer o que eu te disse, vai pedir às pessoas para não contarem nada e se alguma se recusar diz que tem peixe gratis durante uma semana- Achei estranho e perguntei.
- Dona Adelaide, proque é que está a fazer isto por mim?- Ela ficou encavacada, calçou as luvas de borracha e começou a cortar postas de um peixe qualquer.
- Oh...porque gosto muito de ti, Ismael. E também se te apanham eu também sou apanhada por te ter escondido e lá se vai o nosso negócio!
- Nosso?
- Sim...Não! Não vou deixar que o nosso negócio passe a ser deles! Não vou permitir que me tirem daqui! Isto é a minha vida! E não vou permitir que te levem, senão quem me limpava o tapete de entrada?- As lágrimas vieram-me aos olhos.
- Oh, dona Adelaide, se não cheira-se a marisco retardado e se não tivesse as mãos cheias de entranhas de peixe eu abraçava-a.
- Já me considero abraçada, não me faças chorar que tenho as mãos com guelras! Vai fazer o que te disse, vai falar com as pessoas, mas cuidado máximo com os alemães.Evita-os! Agora, quanto á Panelona casada é que tenho de ter os olhos bem abertos. Se ela disser alguma coisa...eu faço-a desaparecer de vez...- E lá fui eu. Pelo caminho até ao restaurante dos Bellini fui a repetir o que tinha que fazer: "Falar com as pessoas, evitar os alemães, falar com as pessoas evitar os alemães". No restaurante é tudo boa gente, todos perceberam e claro que não me vão denunciar. Depois fui até à pensão da dona Celestina e falei com ela e também ela concordou em não dizer nada. Foi dificil lá entrar, aquilo está cheio de lobos maus, quer dizer, alemães. Mas eu sou um judeu forte! Próxima paragem: Talho do senhor Custódio.
- Bom dia!
- Tu? Por aqui? Bifinhos? Costeletinhas? Franguinho? Peruzinho?... Que é que queres, afinal?
- Olhe, vinha lhe pedir que não disse-se nada aos senhores alemães- disse baixinho, claro- sobre eu ser...pronto.
- Seres o quê? Oh! O que é que o Dário te fez???
- Nada! Nada! Eu só lhe queria pedir, pelo meu e pelo seu messias, que não contasse a ninguém, aos alemães, pronto, que eu sou...- e cheguei mais perto do ser cor de rosa-
judeuzinho.
- Ah! O.K! Mas...Nada, filho, deixa estar.
- Muito obrigado, senhor Custódio. Agora vou trabalhar.
-Está bem, eu não conto nada a ninguém...Vai com Deus! Quer dizer com...seja lá com quem queiras ir- Eu sabia, até o senhor Custódio era compreensivo, mesmo sendo o inimigo número um da minha patroa. Voltei para o trabalho.
- Vai lavar as escadas das traseiras, deixei lá cair o resto do empadão de peixe de ontem- Disse a dona Adelaide, ao me ver entrar na loja. Eu fui logo, claro. Mas enquanto limpava a escadas ouvi vozes e gritos na entrada. Fui ver o que se passava e espiei atrás da porta que dá acesso da casa à loja. A minha patroa estava a discutir fortemente com o senhor Custódio. Nada de surpreendente.
- Já lhe disse! Se não fizer o que eu quero, o seu querido empregado vai com os alemães para a terra deles e sabe-se lá o que lhe farão!- dizia o senhor Custódio. Ele ia-me denunciar!!??
- Nunca pensei que você fosse assim, senhor Custódio. Pensava que mesmo por detrás dessa barba gordurenta que havia um homem digno! E mesmo depois do que aconteceu entre nós...Como é capaz de me pedir uma coisa dessas? Como?
- Já lhe disse- disse o Custódio para a dona Adelaide, que chorava- Ou faz o que lhe digo ou eu entrego o judeu...
- Fale baixo!- implorava a minha patroa.
- Não lhe dou muito tempo, mas também não lhe dou um prazo, está a ouvir? Só lhe digo que se não o fizer o seu empregado lava tapetes vai "acampar"- E deixou a peixaria, fazendo bater a porta da entrada e fazendo cair, com tal brutidão, a nossa querida campaínha dourada anunciadora de clientes. Mal vi a campainha cair, abri a porta que me escondia e fui a correr apanha-la.
- Estavas aí, Ismael?- Disse a patroa limpando as lágrimas com entranhas e guelrras e tudo.
- Eu ouvi, algumas coisas, não muitas, mas percebi que o senhor Custódio não é flôr que se cheire e não nos vai ajudar...Mas ele disse que sim quando fui ao talho!!
- Ismael, Ismael!! És tão inocente e tão parvo! Aprende a não confiar em todas as pessoas!- Disse ela ainda a chorar. Sentou-se no banquinho atrás do balcão e levou as mãos à cabeça- Se é guerra que ele quer, guerra terá!- Disse, por fim. Naquele momento abrem a porta da peixaria. É um alemão! Instintivamente corro para trás do balcão. A dona Adelaide levanta-se. O alemão pergunta-me:
- Tem polvo fresco?- Fiquei sem pinga de sangue.
- Não...- respondi.
- Auf Wiedersehen- disse ele, mas não ficou por ali- Ah! E já agora, você é judeu?- Fiquei sem saber o que fazer. A dona Adelaide sentou-se novamente no banquinho, levou as mãos à cara e começou a chorar. Mas eu fui forte!
- Você é alemão?- perguntei ao homem do sobertudo.
- Ya.
- Então, não sou- O homem saiu da loja sem dizer nada. A dona Adelaide levanta-se olha para mim e com as lágrimas nos olhos abraça-me. Cheirava mal. Disse:
- Isto não vai ser nada facil...- Tentei-lhe perguntar o que tinhamos de fazer para que o senhor Custódio não dissesse que sou judeu, mas não consegui. A dona Adelaide estava incosolável.

Nenhum comentário: