Ai a vida está difícil. A comida está cara, a renda também e a freguesia escasseia. A "Loja da tralha" já não me dá o lucro a que estava habituada. Talvez tenha de baixar os preços ou fazer umas promoções. Neste fim de mundo também ninguém tem dinheiro e os Paiva e Castro não costumam misturar-se com a ralé. De vez em quando cá vem a Pilar comprar um espanador, uma vassoura ou coisas do género. Bela moça essa espanholita!E agora o pior é a estrangeirada! São aos molhos! Por causa da guerra este país tem se tornando um autêntico paraíso para os furagidos e os criminosos, só pecadores. A Pureza disse-me que a Dona Celestina até já hospedeu uns aviadores ingleses. As moças da vila andavam todas babadas de volta da pensão a ver se lhes jogavam a unha. Eu não! Quero lá saber de homens ... quero-os bem longe de mim!
Com toda esta confusão, de tanta gente a chegar e a partir novamente, era de esperar que ao menos comprassem umas lembranças, umas coisinhas para a viagem, nem que fosse a porcaria de um rebuçado de mentol, nada! Não querem gastar dinheiro, só arrumar confusão! Odeio imigrantes! Odeio!
Certa noite estava eu muito bem a repousar de um dia esgotante atrás do balcão quando acordo com uma grande gritaria na rua. Ainda pensei que fosse a Melanie a reclamar um pagamento ou que era só a Pureza a mandar calar o Quim devido às suas cantorias alcoólicas. Pior ... era gente de fora! Ainda por cima percebi que eram estrangeiros. Era só o que me faltava! Não me digam que ... meu deus eles vão se apoderar da casa da esquina mesmo ... mesmo em frente à minha lojinha! Malditos sejam! Vou-vos causar transtornos a todos os níveis!!
Não dormi a noite toda, em grande parte porque eles não deixaram. Primeiro pensei que fossem judeus, depois que talvez fossem comunistas (o que seria fantástico pois a PIDE paga bem e ao denunciá-los ainda garantia um par de cães de louça para a entrada da loja), mas pela manhã eles decidiram içar na porta do estabelecimento a bandeira de Itália, e aí as dúvidas acabaram. Uma família de italianos, provavelmente uma cambada de bêbedos, com uma cambada de filhos gordos e comilões que vão fazer festanças até às tantas acabando com o meu descanço e provavelmente com o meu negócio. Sim porque o apartamento fica mesmo por cima do antigo café (teve de fechar devido às baratas que se banhavam nas chávenas de café). Em tempos chegou a ser uma drogaria que teve de fechar devido à concorrência por parte da minha loja. Sim porque eu não admito que alguém me faça frente nesta rua, seja de que negócio for! Eu cá me arranjo. As baratinhas nunca existiram mas também ninguém teve tempo de verificar pois eu dei uma palavrinha ao senhor Silva do assunto e prenderam o dono por fuga aos impostos. Foi solto pouco depois mas o pobre homem já não voltou à vila e desfez-se da casa e do café assim que pôde.
Mas para ver o que vou fazer tenho de me informar. Está por isso na hora de preparar, vou vestir o meu vestido azul com rosas brancas, ponho o meu colar de pérolas e o meu batôn vermelho e estou pronta!
- Dona Pureza sou eu, menina Rosália! Abra a porta minha querida!
- Menina Rosália que bom vê-la! Está linda hoje!
- Já viu quem chegou a Coentros? Já ocuparam o café da esquina e a casinha por cima! E estes parece que vieram para ficar. Temos de fazer alguma coisa e rápido!
E lá fomos nós rua a baixo. Era domingo e por isso só abro a loja à tarde. Aproveito a manhã para recolher informações. A Dona Celestina nem deu por eles chegarem. O Quim diz que não sabe de nada apesar de eu o ter visto a conversar com eles na noite passada. A Melanie diz que não tem nada a ver com isso a menos que hajam lá homens. O Jean Paul disse mérde, literalmente. Resolvi que se quisesse saber a verdade tinha de pegar nas minhas perninhas por depilar e ir lá eu mesmo, ah e a Pureza.
Estavam duas miúdas à porta aos segredinhos. Desejei-lhes um bom dia e elas desataram a rir, era óbvio que não percebiam uma palavra de português. Entrei cautelosamente e ... meu deus, já começaram as obras! O homem estava em cima de um escadote a pintar as paredes, a mulher estava a desempacotar panelas e pratos. Havia ainda um rapaz a varrer o chão e um burro deitado no corredor.
- Bom dia! - disse eu a medo.
- Buon giorno signora! - gritou o homenzinho.
- Vim dar-lhes as boas vindas ao bairro. Eu - apontando para mim própria - ser Menina Rosália e esta - apontei para a Pureza - ser a minha amiga Pureza!
- Signora non precisa falar de maneira esquesita. Io comprendere português!
- Óptimo!
Contou-me toda a sua históriazinha deprimente de como teve de fugir de Itália, dos contratempos da viagem, da gravidez da mulher, dos joanetes da sogra ... eu sei lá! Ao menos consegui perceber os seus planos e de como vai ser fácil expulsá-los daqui. Já fui falar com o Silva e ele vai andar de olho neles. Mas parece-me que eles vão acabar por sair de livre vontade, onde é que já se viu abrir um restaurante de comida italiana?? Só podem estar doidos!
Passaram dois anos e eles ainda não foram embora. E eu fiz de tudo para os tirar daqui, mas por muito que me custe admitir eles têm muito sucesso, nunca se viu nada assim! Mas não pensem que passei para o lado deles!! Fazem-se de amiguinhos, conquistaram os vizinhos pelo estômago ... eles põem alguma coisa na comida de certeza! Saem de lá todos babados como uns animais. Ninguém liga aos bons costumes, a Melanie vai lá todas as noites antes da ronda, o Quim passa lá os dias e às vezes à noite lá se consegue esgueirar e dorme escondido debaixo do lava louças abraçado às garrafas do Porto. Ás sextas feiras à noite nem se fala ... comer, beber, cantar ... aquele Bellini tem a mania que é cantor e então sujeita a vizinhança a uma cantoria infernal todas as semanas. Mas os tolinhos parecem gostar. Apenas pessoas sensatas e com moral ainda não se renderam às pizzas, almôndegas, esparguetes e molhos daqueles desmiolados. Essas pessoas sou eu, a Purezinha e o senhor Padre. Claro que o casal Paiva e Castro não pos lá os pés mas também já vi a Pilar por lá às sextas a dançar como se tivesse possuída por uma sevilhana dos infernos! O Silva anda por lá a investigar diz ele. Mas raramente sai da pensão nos últimos dias.
Eu vejo tudo da minha janela, nem é por escolha eles obrigam-me! De noite e dia o barulho é insuportável. E desde que a criança nasceu a coisa piorou. O raio da criança passa o dia a chorar. Parece que não arranjam uma ama para tomar conta dele e então a Francesca passa o dia de um lado para o outro com o porquinho debaixo do braço. Bom está na hora de ir para a loja.
O negócio está cada vez pior. Raro é o dia em que vêem cá mais de 5 pessoas. Qualquer dia terei de vender porta à porta para fazer face às despesas. Mas fechar nunca! Não admito que aqueles arruaceiros me vençam! Por falar nisso ...
- Buon giorno signora Rosália!
- Bom dia Francesca o que vai ser hoje? - só aquela estrangeira para não se aperceber do meu ton cínico.
- Queria comprare uma panela! Mio Nico vomitou na minha panela di pasta e adesso preciso di uno nova. Io tentei usá-la ma a pasta ficou uma bella mer ... porcaria!
- Eu compreendo! Vamos lá a ver o que tenho para aqui ... ora aqui está! Uma "bella panelona"!
- "Panelona"? Signora ... ahah ... in italiano panela si dice "pentola"!
- (quem é que pensa que é para me achincalhar desta forma?) Ahah eu sabia! Era uma piada!
- "Panelona" parece outra cosa ... paneleira como diz mio Matteo!
- O seu Matteo? D-Diz isso de quem? P-Porquê?
- Bene ... é cosa dos bambini do bairro. Non sei de quem parlare!
Aquela atrevida! Vem para a minha loja insultar-me! Ai se eu não me controlásse! Mas é melhor não arranjar confusões ou então desconfiam. Tenho de lhes ganhar a confiança, ser sua amiga e confidente. Não deve ser difícil. Ao que parece o casamento não é perfeito por muito que tentem disfarçar. Há quem diga que o senhor Bellini anda a provar o risoto alheio.
Um comentário:
Esta mulher é diabólica! Uma das más, só pode.
Ela Gosta de mulheres? -_-
Ah e se não gosta de estrangeiros está lixada, no pais em que vivemos isso é impossivel de se odiar os estrangeiros, ou então odeia muita, muita gente! xD
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