domingo, 7 de setembro de 2008

A revolução italiana

- Mãaae, vou sair para ir trabalhar, volto...volto...- Não acabei a frase. Não acabei porque nunca sabia a hora a que saía de Vila Velha do Moscardo. Preferi fechar logo a porta.Nunca sabia o trabalho que me esperava, àquela hora da noite, depois de um dia de trabalho, no grande hotel "O Poderoso". É um hotel de gente fina, enorme! E eu era uma das moças que andavam a limpar "O Poderoso" à noite. Fiquei com o jardim e casas de banho...Podem imaginar. Há uma piscina gigante que é esvaziada durante a noite. Era eu que a limpava. E já posso dizer às minhas amigas que entrei numa piscina! Apesar de não estar cheia de água, mas cheia de porcaria. Folhas, escrementos de todo o tipo, insectos, encontrava lá de tudo! Tudo mesmo, até pulseiras, colares e aneis de algum valor que empenhava para sustentar a minha casa. Pobre pessoa que perdeu este anel de ouro...Pobre? Nunca será pobre mesmo se perda todos os seus anéis de ouro, prata e até pechisbeque! Assim, fico com eles...Ando com um até, o mais bonitinho, uma aliança com uma pedrinha verde, minúscula, em cima. Discreto, como eu. Vila Velha do Moscardo é melhor que Vila Nova de Coentros. Fica ainda a uns 30 quilómetros, mas é bom haver um sitio como Moscardo, onde se possa passear, onde há outras coisas, onde se possa abrir mais os horizontes. Quero tanto sair de Coentros...Quero correr o mundo! Quero tanto...Mas não sei...está difícil. Muito difícil. Limpava casas de banho e uma piscina, uuuuh! Que futuro promissor! Só mesmo se encontrasse alguém diferente, que me levasse daqui para fora. Em 1940 a vida era uma miséria. Já se passou dois anos e...até melhorou um bocadinho, vá...Pelo menos já não trabalho no "O Poderoso". Trabalho, sim, no Dolce Piacere, o restaurante dos Bellini. Quando cá chegaram revolucionaram a vila. Uma família grande, um projecto novo, algo nunca visto, algo nunca "provado". As comidas com o molho rico em tomate, rico oregãos. Pisas! Algo que só havia ouvido falar no hotel, quando chegava mais cedo, ou quando apanhava os menus molhados, junto ao chão da piscina. Lembro-me deles chegarem à cidade. Nunca gostei de me meter na vida das pessoas e a deles não foi excepção. Sabia que iam fazer um restaurante, ou um café ou uma cervejaria, sabia lá! Mas não me impressionava nem tencionava meter-me em nada. Já bem bastava a minha vida para problemas quanto mais arranjar problemas aos outros. Um dia vinha do trabalho, à noite, uns meses depois dos Bellini se acomodarem na vila, chovia imenso e trovejava ainda mais! Vinha ensopadinha. Tinha apanhado boleia do snhr. Padre Calvário, que tinha ido dar a extrema unção a um fidalgo do hotel, que, coitado, já estava mais para lá do que para cá, mas só no caminho da casa paroquial até à minha casa fiquei molhada até aos ossos. Quando passava na esquina do restaurante dos Bellini ouvi com mais intensidade aquilo que me parecia desde o inicio da vila um choro de bebé. "Credo", pensei " Deus ajude aquela mãe...". Na esquina, e como sempre, estava a Melanie.
- Melanie?- Perguntei espantada por vê-la ali, numa noite daquelas, à espera de...credo, à espera de alguém!- Até hoje? Vai para casa...
- Ai, ma cherry- disse ela tremendo de frio debaixo do seu guarda-chuva- tenho de ganhar a vida! Ainda não paguei este mês à dona Celestina.
-Mas achas que vai aparecer alguém? Agora? Com este temporal?
- Marquei aqui com um ricaço de Cacamilho, ele disse que passava aqui...
- Cacamilho? Isso é tão longe. Melanie vai para casa...
-Non! Ma cherry, como és teimosa! Ele vai aparecer!
- São quase duas da manhã e...
- E esta criança dos Bellini não pára de chorar!- Eu acabei por me por de baixo do guarda chuva da Melanie, porque senão transformava-me definitivamente numa poça de água. Vi a menina Rosália espreitar por detrás das suas cortinas às rendinhas. Provavelmente amanhã todos saberão que, também eu, me tornei numa prostituta. Típico.
- Tens razão, pobre criança. Devem ser cólicas.- respondi.
- Oh! Já sei! Olha, Regina, vais ao meu quarto, pedes à dona Celestina para te dar o xarope das cólicas do Jean.
- Eu?
- Oui. Achas que posso sair daqui? Não. Aquele xarope é o melhor para as cólicas dos bebés.
-Nem sabia que isso existia...
- E não existe, ma cherry...Mas existe na France!
- Compras.te lá?- disse eu encantada.
- Non! Engatei um monsiour amigo de um amigo da minha amiga que tem um amigo médico que é um regalo para o olhos! E ele deu-me este xarope para o Jean, porque gostou muito de mim e sabia que tinha problemas em cuidar do meu bebé. Mas vá! Vai lá à pensão buscar isso!- Apressei-me e, ainda à chuva, com um xaile pela cabeça, corri até à pensão e trouxe de lá o milagroso xarope. Quando cheguei à esquina do Dolce Piacere a Melanie já não estava lá. Provavelmente estava a caminho de Cacamilho com o ricaço ou quiçá, como ela diz, até a outro sitio qualquer. Quando dei por mim estava a bater à porta do restaurante com toda a força. Envergonhei-me só quando me apercebi do meu descaramento. Com o choro da criança ninguém ouviu a porta e, como estava só no trinco, abri e entrei. Era mesmo giro aquilo lá dentro. Tudo...diferente e italiano. Cheirava a pão e a outra coisa qualquer. Veio-me água à boca. Estava seca ali, pelo menos. Entrei e olhei para cada pormenor da decoração com todo o cuidado e tempo do mundo. O bebé tinha acalmado e eu tinha, assim mais tempo. Sentei-me numa mesa, li o menu e não percebi nada de nada. Pasta? Pasta dos dentes? Pasta de moldar? Isso come-se? Foi então que me pus a representar.
- Pssst!- disse eu, sentada, de perna traçada, para o garçon imaginário que se apresentava de laço ao pescoço e pano no braço e bandeja na mão- Quero uma Pasta Milaneza! Não! Um spagheti à carbonnara! Oh! Que desastrado, derrubou tudo por cima de mim! Vou fazer queixa ao patrão- continuei eu a falar para o garçon imaginário que me pedia mil desculpas- venho eu de França, de Inglaterra, Londres, aqui, a Itália, para ser mal servida? Oh! Traga-me já...- disse olhando de lado para o menu- uns...uns...
- Canellones?- Fiquei aterrorizada e olhei imediatamente para trás, em direcção à voz que me assustou. Fiquei roxa, amarela, verde, vermelha. Seria o dono da casa? Mas era demasiado novo! Seria um empregado? Mas não tinha porte para isso! E morava lá? Tudo indicava que sim! Oh e como era...bem parecido.
- Peço desculpa- disse eu compondo a mesa desastradamente atirando tudo para o chão- eu não queria entrar, mas tive de entrar poque tenho aqui uma coisa da Melanie e..."PLLOOFF" oh...parti o potezinho de pimenta...peço desculpa- disse enquanto apanhava o pozinho do chão com os dedos, muito rapidamente. O rapaz olhava para mim espantado. Eu era uma ave rara, molhada até aos ossos, que entrara na casa dele, fazia figuras estúpidas e arruinava-lhe o negócio.
- Não há problema nenhum...-disse ele apressando-se a ajudar-me a apanhar a pimenta.
- Atchim!
- A menina já apanhou uma constipação, está toda molhada...
- Nãaao, isto é da pimenta, de certeza!- disse fazendo ainda mais figura de estúpida. Nisto o bebé rompe num choro de dor.- Pobrezinho- disse eu- Deve estar cheio de dores...
- Não deixa dormir ninguém, a não ser a minha avó, claro, essa dorme até com uma fanfarra a tocar-lhe à cabeceira.- ri-me um bocado. Já não me ria à tanto tempo até então. Heis então que me lembro do xarope.
- Oh!- disse, agarrando o frasco do xarope como se o tivesse descoberto no preciso momento- Aqui está a solução para as noites mal dormidas!- Rimos os dois- É de confiança, é da Melanie.- O rapaz olhou para mim desconfiado quando disse "Melanie". Percebi porquê.- Garanto-lhe, ela deu ao filho dela, não falha- conclui.
- Espere aqui um momento- disse-me o rapaz, e subiu as escadas que, provavelmente davam para a casa dele. E eu esperei. Realmente o xarope foi remédio santo. Para o bebé e para mim. Graças ao milagroso xarope conheci o Matteo e através do Matteo o Dário, o meu melhor amigo, que já trabalhava no restaurante a lavar pratos. Naquela noite eu e o Matteo falámos até ao sol nascer. Larguei as piscinas e os ricaços, as dondocas e as suas pulseiras perdidas na piscina e trabalho no balcão do Dolce Piacere. Ganho o mesmo e sou mais feliz.

Um comentário:

Pata@Jesus disse...

Ohhh, que moçoila tão fofa!

Gostei da personagem. xD



Isto de entrar num restaurante e por-se a pedir comidas a um empregado imaginario é k nao é mt normal... lol